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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Não é inteligente xingar as pessoas na internet (nesse texto explico o porque)

 

Não é inteligente xingar as pessoas na internet

(nesse texto explico o porque)


   Isso de xingar as pessoas na internet, entre outras razões, tem três razões principais. Uma é uma atitude emocional de quem se sente agredido, ou foi agredido, responder de volta com uma agressão. A segunda razão é: o egoísmo. Você xinga alguém de burro (por exemplo) para ao colocar o sujeito como um ser inferior intelectualmente, colocar-se como um ser superior - e não apenas superior - mas alguém tão superior que tem o direito de tratar outras pessoas como inferiores classificando-as por adjetivos pejorativo. A terceira razão porque normalmente se xinga uma pessoa na internet é porque é mais fácil xingar determinadas pessoas na internet. É mais fácil do que tentar convencer a pessoa do engano que você acredita que ela cometeu. E é mais fácil do que ficar numa discussão longa, que provavelmente a pessoa que você xinga, no final da discussão vai continuar com a mesma opinião. E é fácil xingar determinadas pessoas uma vez que essas pessoas passaram a ser xingadas por muitas outras pessoas. Você pertencendo ao grupo de pessoas que xinga essa pessoa, terá facilidade em ter essa atitude hostil porque você tem o apoio do grupo (diferentemente se fosse o caso de xingar alguém que é bem visto pelo grupo de pessoas que você pertence*). Então xinga-se na internet pela mesma razão de que se faz muitas outras coisas na internet (movido pelo efeito manada). Poderia levantar uma quarta razão para se xingar. No caso para se ter a sensação de que é um transgressor. Alguém sem papas na língua. Na literatura, um “maldito”. Um espírito bukowskiano. Quarta razão que na verdade se trata, na maioria das vezes,  da segunda razão. Quem faz isso na internet busca vender a imagem de um radical e destemido (um herói sujo); mas serão realmente esse sujeito? Tu tem coragem de utilizar essa linguagem contra os deuses (aquelas pessoas que são bem vistas) do grupo ao qual você pertence? Agredir com ofensas pessoas com  outra visão de mundo (diferente da do grupo que pertence) já é o que a maioria das pessoas fazem na internet. Isso tem menos de transgressor do que tem de buscar por autoafirmação no grupo ao qual pertence.

   E essas razões todas citadas acima não ocorrem isoladamente uma da outra a cada ofensa que uma pessoa faz. Ocorrem misturadas num mesmo ato, sendo que uma ser mais preponderante que a outra, não quer dizer que a motivação da pessoa é apenas seja esse motivo ou seja o motivo mais perceptível.

Agora que já disse as razões porque as pessoas xingam uma as outras na internet, eu vou dizer as razões porque considero um erro xingar as pessoas na internet.

  A primeira razão que citei (a emocional) é algo que muitas vezes não temos controle. Sobretudo quando estamos sendo xingados. E eu fico abismado quando vejo uma pessoa reclamando que foi xingada (que as pessoas que o xingaram são intolerantes) quando esta pessoa já entrou na discussão xingando. Você quer xingar alguém e ser recebido com flores? E diria que as vezes não tem jeito mesmo. Sobretudo aquelas pessoas soberbas que se acham superiores e ficam colocando kkkk, a cada comentário que fazem. Diante da atitude dessas pessoas, eu até entendo quando alguém manda elas para a puta que pariu. Isso, embora eu ache que a atitude mais inteligente diante dos soberbos não é xingá-los. É ignorá-los. Xingá-los só vai levá-los a achar que realmente disseram uma “verdade” e como “a verdade doí”, agistes emocionalmente por causa da “verdade” dita por ele. Crença que vai elevar ainda mais o ego dele. Ao ignorar essas figuras, você lhes mostra que eles não são tão importantes como creem ser, e diria até, na minha experiência com essas pessoas, que muitos: ou pararam de querer conversar já que não estava lhes dando bola ou mudaram o tom da conversa. Não existe nada que atinge tanto o soberbo quanto você ignorar ele.

  O segundo motivo: xingar alguém porque é mais fácil.

  Fazer isso pode ser útil tanto para encerrar uma discussão que você acha que não vai levar a lugar algum e se ocupar de algo que  considere que merece maior atenção. Mas para encerrar a discussão você precisa realmente xingar a pessoa? Para que isso? Se você quer deixar uma discussão, você pode perfeitamente deixar ela sem xingar a pessoa com quem você esta debatendo. Se você, na discussão, acredita que a pessoa esta sendo ignorante e não respondendo nada do que você realmente disse, é só você dizer que você disse X, Y, Z e a pessoa respondeu como você tivesse dito A, B, C. Não foi só uma vez que isso ocorreu, daí não adianta continuar a discussão quando a pessoa não consegue interpretar o que foi dito mesmo você tendo sido claro no que disso. E tendo dito isso, você se despede da pessoa sem precisar xingar ela. Diria até que essa tática inclusive funciona para pessoa reler os comentários e dar respostas mais de acordo com o que realmente foi dito. E se não funcionar, paciência. O fato de algo ser mais fácil de se fazer, não quer dizer que seja a atitude correta a se tomar. Assim como não será xingando a pessoa que você vai resolver também alguma coisa. O que consegue-se xingando as pessoas é o ódio delas - e diante dele - a mínima probabilidade de ela pensar sobre o conteúdo do que você esta dizendo será reduzido a nada.

  A terceira razão de xingar as pessoas na internet: o egoísmo.

  É o egoísmo de querer se colocar como superior tratando alguém como inferior, tratando uma pessoa como lixo, pode de repente até servir para agradar pessoas que tem essa mesma atitude ou gostariam de ter. Você pode até se tornar um ídolo delas. Um Nando Moura, um Olavo Carvalho (que são duas pessoas que utilizam essa tática). Mas é isso que você realmente quer? Crescer pela via desse comportamento hostil para com quem pensa diferente? A internet esta carente dessa atitude? É ético? E o caminho é olho por olho, dente por dente e vamos assim resolver os problemas do mundo?

* A gente pertence ao mesmo tempo a diferentes grupos (classes sociais, grupos profissionais, gênero, crenças e grupo de afinidades intelectuais) Penso que na internet as pessoas buscam mais o apoio desse último dos grupos citados e ficam nessas bolhas.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A tragédia do artista -


  É uma tragédia ser um artista hoje. Mesmo que digam que não seja para todos, para mim é uma tragédia ser um artista hoje.
  Que função tem um texto literário em prosa quando o que hoje consome o tempo que seria de leitura de um texto desses são memes, séries em serviços de streming, pornografia e a vida banal espetaculizada compartilhada em selfies, fotos dentro do carro, vídeos do cachorro, gato, sermões, frases de autoajuda, etc. Um texto maior é o “textão”. E isso é para eles uma coisa chata que lhes tira o tempo da pilha de coisas menores, fúteis, que em quantidade se tornam maiores e consome o tempo das pessoas como uma droga viciante. O texto maior a ser lido, para quem hoje lê textos maiores, precisa ser algo como uma matéria jornalistica; um texto informativo porque as pessoas querem estar a par de tudo. Informadas para não serem enganadas ou para com essas informações produzirem um discurso de autodefesa. De busca de controle. Seja de si; seja dos outros. Então o texto precisa ter uma função utilitária, de controle, e dificilmente as pessoas veem isso num texto literário.
  E histórias em quadrinhos que não sejam tirinhas rápidas? Muitos lugares que antes haviam bancas que vendiam revistas em quadrinhos, não há mais. O mercado editorial vive uma crise que deve ser a maior de sua história. Quem vai querer pagar para ler uma revista de papel (essa coisa arcaica) ? Ah; mas podem se adaptar aos novos meios… Reduz os custos com papel, impressão… Mas aí as pessoas vão ler HQ no Android? A tela é pequena para isso. Um tablet é melhor. Mas poucos vão comprar tablet para ler HQ. O teatro? Tudo bem que antes a maioria já não saia do conforto de suas casas para ir ao teatro porque já tinham outras opções de entretenimento. As TVs. Daí a internet rivaliza mais com a TV do que propriamente com o teatro. Mas eu vejo tanta gente do teatro, do cinema, das Letras só falando em séries que acompanham na Netflix. Nada em particular contra as séries, mas porra, se você não tem interesse de falar nem daquilo que você como artista faz, como você vai querer que o resto do povo se interesse? O próprio artista que não liga para arte dele é um artista morto. Os artistas estão mortos substituídos por filmes de heróis de baixa qualidade. Poucos músicos produzem músicas novas. Compõe música. Muitos fazem couvers. Cantando bons artistas do passado porque o presente é um cenário de morte. Somos mortos.

sábado, 24 de outubro de 2015

1 -



2 -

Eu fiz uma pergunta para a Ariadne, que responde:
MEUS PAIS
Eu perguntei para o George, que respondeu:
IDOSOS
Eu perguntei para Aquela, que respondeu:
VERRUGAS
Eu fiz a pergunta inicial para a Lua, que respondeu:
ABRAÇO
Eu então perguntei para a Lua a última resposta anterior a dela, e ela 
disse:
BORBOLETAS
Eu perguntei em pensamento: O que raios tem haver verrugas com borboletas?! Ela respondeu meu pensamento:
VERRUGAS VIRAM BORBOLETAS

Rede de correlações entre os trabalhos (constelações)

  Nós-lírico
  
  Eu comecei escrevendo uns textos comentando umas fotografias  cumprindo uma tarefa do curso de Genealogia das Artes Visuais.
   Dá um certo medo fazer cursos assim porque depois que fazemos pode ser que as pessoas comecem a fazer perguntas para a gente considerando o nosso ponto de vista como o de “especialistas”. É mais agradável dar a opinião como leigo, porque assim a gente pode dizer qualquer besteira e ser pueril a vontade.
  Ocorre que essa foto com a frase no edifício: “PHOTO OF A SKINNY WHITE GIRL” deve ser a progenitora da que fiz com a garrafa térmica. Eu gostei dela mais do que a outra opção. Aí vou e faço um trabalho com foto e texto também. Evidentemente são trabalhos diferentes no tema e certamente também nos motivos. Mas não consigo imaginar a existência de um sem outro. O primeiro existe sem o segundo. Mas o segundo não existe sem o conhecimento do primeiro.
  Os trabalhos de arte são filhos gerados pelos artistas que o fazem. Mas eles não nascem puramente do artista sem relação com nada. Eles nascem do artista com relação com outras coisas que podem ser: as pessoas próximas, outros trabalhos de arte, a ausência de outras coisas que o artista gostaria de ver e não vê, a necessidade de fazer alguma coisa por diversos motivos, e tudo isso junto.
  A foto com o texto da garrafa térmica nasceu do momento em que vi a garrafa térmica diante de mim, somado a necessidade de ter que fazer algo, junto com a lâmpada que vai se ascender na minha cuca no momento da ideia e somado a referências anteriores. Posso até estar enganado, mas duvido que eu produziria uma foto com um texto se não fosse PHOTO OF A SKINNY WHITE GIRL. Na verdade nem tem como verificar isso; mas é o meu palpite (é algo que tem tudo haver comigo pois a escrita e a imagem são duas coisas com as quais eu trabalho e gosto).
  Alguém pode até dizer: ESSE TRABALHO É UMA DROGA!
  Mas esse trabalho é minha criança. Eu gosto dela.
   Ser artista é ser uma mãe sempre pronta a parir um novo filho. A gerar com o mundo que nós penetra um filho que por sua vez vai penetrar no mundo (mesmo que não seja percebido)
  O segundo trabalho - que é apenas um texto - surgiu de uma conversa que tive com Diogo. Ele me pediu a opinião sobre um trabalho dele e eu disse que achava legal, mas eu via muito o eu e estou farto do eu que vejo a maioria dos artistas se restringirem.
  VocÊ pode fazer coisas incríveis se restringindo apenas a perspectiva do eu. Muitos artistas fazem (principalmente poetas). Mas eu tenho um posicionamento teórico em relação a arte que me faz considerar ela como algo num ponto além deste ponto simplismente do eu.
  Uma vez estava numa discussão com professores de filosofia, artistas, intelectuais e um deles disseram uma coisa que me causou incomodo e tédio. Ele disse: “A arte cumpre a função de revelar nossa verdade. De colocar o nosso eu  nu.” - Não considero isso uma mentira; mas me incomodou eles restringirem a arte a apenas isso. A arte é algo que está bem além disso.
  A arte não é apenas o artista se desnudando e revelando o seu “eu”. A arte também é o artista contando mentiras. É o artista também colocando mascaras e trocando a cada lance de mascara. Utilizando disfarces. O artista ao mesmo tempo que ele se desnuda, ele também se cobre de mil novas faces e possibilidades. E eu posso não entender nada de artes plásticas e de poesia, mas eu sei que os grandes romancistas são caras que constroem o outro. Claro que é o outro sob a perspectiva do eu-autor. O outro a partir de escolhas arbitrárias do autor. Do que o autor acha importante dizer. Mas já não é se restringir ao eu. É uma tentativa de construção da sensibilidade do outro. Já não se trata simplesmente do que eu sinto, do que eu quero, do que eu penso. Quem quer apresentar as suas ideias escreve filosofia. Quem quer falar de si  escreve um diário. Ambos podem ser expressos de forma artística muito interessante. No caso do diário é a literatura de memórias ou o álbum de fotos de acontecimentos particulares. Podem ser esteticamente muito interessantes. Belas artes. Mas para mim é insuficiente. Para Fernando Pessoa era tão insuficiente que ele criou os heterônimos.
  O trabalho de arte do ponto de vista da construção de significados supera a filosofia. Não se trata apenas do olhar do autor. Mas se trata do olhar dos outros e da tentativa  de construção da sensibilidade dos outros. Já não interessa mais simplesmente o olhar do artista. Mas o olhar do artista sobre o olhar de uma outra pessoa. O olhar dessa outra pessoa sobre outro. A construção no trabalho de arte de pontos de vista de outras pessoas. Sempre vai haver a subjetividade do autor que vai escolher a forma como ele vai fazer isso e o que ele acha importante de apresentar. Mas já não se trata do eu-lirico. Não se trata de simplesmente autor com sua enxurrada de sentimentos. É algo muito mais complicado. É algo que vocÊ vai ver e não vai poder dizer: “Esse é o modo de pensar do autor”. Porque vocÊ estará em contato com outras sensibilidades e não com uma simples copia em outra versão do autor.
  Então o que eu fiz foi perguntar para as pessoas o que elas pensam sobre a ideia: EU CONFIO EM VOCÊ.
  Foi algo curto como demonstra o texto. Mas que eu considero surpreendente. As respostas que as pessoas deram foram incríveis.
  Se trata somente de um trabalho experimental. Mas que serve de base e inicial para outros trabalhos mais complexos e amplos que desejo fazer.
  Está ligado com uma intenção política de conectividade com as pessoas saindo apenas do artista intelectual que se restringe as suas referencias e aos colegas com quem ele se identifica? Embora isso também seja uma necessidade e uma intenção minha que dou grande valor, eu até aqui nesse texto em particular estava somente me referindo ao plano estético.
  A arte não se trata somente do autor. É algo que nasce do autor em comunhão com o outro. VocÊ não pode dizer que um filho seu é você. Ele tem uma personalidade própria.  Aliás, ... Em comunhão e em conflito; Nasce do caos, do desejo, do tédio, do amor, da solidão, da loucura, da razão, da derrota, do esquecimento, da lembrança, etc...
  Um viajante como o Sebastião Salgado, um entrevistador de pessoas comuns como o Ignácio de Loyola Brandão, um mergulhador que submergi na psique humana como o Freud; todos encaram esse desafio emocionante e duro de viajar para dentro do outro.
  Escrever uma teoria sobre uma teoria que falava de outra teoria; que coisa mais chata e inútil. Os estudantes não passam nem 20% do tempo deles na rua pesquisando, falando com as pessoas. A universidade não ensina os estudantes a fazer isso. É sempre um olho só para o próprio umbigo.
  A quarta opção é esse texto reflexivo. Não o considero um trabalho de arte embora aja arte nele.

 A quinta opção que coloco nessa constelação é uma fotografia que recortei de um vídeo. Porque faz parte da  constelação? Porque faz parte da história particular de elaboração desses trabalhos. É uma ideia que tinha tido antes, mas não tinha colocado em prática. É algo que considero interessante, embora eu esteja sentido uma imensa tristeza pelo homem de balão azul sozinho. Coitado dele.   
  A sexta coisa que coloco nessa constelação é página postada no Facebook por ti professora, sobre os livros pessoas. Eu poderia também ter colocado o livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, ou a película baseada neste mesmo livro, dirigida por François Truffaut. Mas aí seria muito obvio, sei lá.
  A sétima coisa foi o meu blog que já estava a um tempinho sem publicar nada nele, e agora vou publicar esses textos nele. Ele não tem leitores. As pessoas que gostam do que eu escrevo me liam por e-mail e agora na Facebook. Uns gatos pingados.
  Mas um dia eu vou ser um artista cultuado e meu blog teatro-bar vai ter milhões de leitores (risos).
 (eu optei por explicar tudo nesse texto como quinto elemento da constelação do que por colocar uma explicação abaixo de cada coisa porque eu acho isso chato, e já esse texto eu acho legal. É diferente destes textos acadêmicos que eu quase sinto vontade de me matar)

sábado, 17 de outubro de 2015

Janelas com ideias


  Pela minha leitura inicial, pensei em algo dadaísta que não precisa ter um sentido claro e objetivo. Vale mais pelo estranhamento e confusão que cria na cabeça de quem vê essas palavras gravadas num edifício. Mas elas foram gravadas em um edifício em algum lugar, ou ele é uma invenção? Ou o edifício é real e as palavras foram feitas por algum programa de computador que permite escrever em cima de uma fotografia?
  Logo um possível  significado objetivo ficou claro – para não dizer: obvio.
 As palavras substituem o que seria um outdoor. Um outdoor bem comum de se encontrar em grandes centros de concreto e propaganda de tudo que se pode imaginar - Se pudesse o capitalista venderia a própria mãe. Colocaria ações da própria mãe na bolsa de valores de Nova York para alguém comprar e ter parte dos direitos do outro como filho da mãe do outro - Mas voltando ao tema...
  A principio são palavras em inglês que  não sei o sentido porque eu não falo inglês. Mas aí vou buscar o sentido e vejo o que significa: Foto de uma menina branca magro. O tradutor Google traduziu skinny para magro e não magra. O que imagino que não exista diferenciação de gênero para essa palavra no inglês.
  Poderia ser: foto de uma menina magra como manequim de carne para fazer propaganda de alguma roupa que se queira vender. Mas essas meninas são tão belas (dentro de um padrão determinado de beleza), que até se esquece que elas são de carne e osso e que, por isso mesmo, possuem uma serie de dilemas humanos.
  Então concluímos que é uma fotografia política (de critica a sociedade do consumo que transforma tudo em mercadoria) e dizer em palavras pode levar as pessoas a todas essas questões que a banalidade do outdoor não levaria as pessoas a pensarem (não por ser outdoor, não por ser palavra. Mas pela troca de um modo comum por outro incomum no tema em que se faz a troca)?
   Na verdade o sentido que eu acho mais interessante nessa foto é o existencialista. Eu não vejo a palavra substituindo a foto. Eu vejo a ideia sobre a foto. A ideia sobre a ideia de uma foto que pode nem ser uma foto, mas sim uma construção de minha cabeça. Mas mesmo que não tenha nada a ver com o que eu digo; o trabalho me provocou pensamentos que me levaram a mil questões humanas.
  Penso na quantidade de mocinhas que agora estão indo a escola, ou dormindo, ou com o namorado, ou trabalhando, que gostariam de ser essa moça magra branca da foto?
   Penso na frivolidade delas. Penso na frivolidade humana. Penso nas muitas histórias e caminhos que isso tudo leva. Penso na beleza dessas histórias. Não tem jeito. Tudo me leva a histórias. (risos).
  Só que quando as pessoas pensam em história, elas pensam num texto. Elas não entendem que o texto é um modo, e que uma história pode se contar de muitos modos. A história não é o modo. Ela é algo muito mais essencial. O modo é a forma como o artista busca narrar a história ou captar um determinado momento poético de uma história.
  Essa foto capta uma questão política, uma questão existencialista e uma questão semântica.





2 -





Quando eu vi essa foto, eu nem imaginei que fosse uma colagem de fotos. Eu tinha pensado que era uma pintura. O que pode levar a pergunta: A fotografia não é também uma pintura - mas com a diferença de que ao invés de pinceis, o pintor usa a câmera fotográfica - que seria aí um novo tipo de pincel que foi inventado?
  Se isso não vale para toda a fotografia; penso que vale sim para essa.
  Ela é uma pintura com a câmera fotográfica em que a tinta já está composta em partes que são postas formando a imagem através de colagens.
  STOP, Pare! Pare e olhe.
  Exige a atenção para descobrirmos em nós um significado maior que a imagem pode ativar ou não.
  Eu me lembro do vários filmes estadunisiense que eu vi e se passam nesses desertos com cactos e uma pista que segue e se perde de vista. As placas de outro lugar provocam um estranhamento, e talvez essa imagem não seja capaz de atrair por uma identidade que as pessoas costumam buscar no objeto de arte (geralmente as pessoas se interessam por algo com o qual elas se identificam). Mas não é verdade. Também podemos gostar de algo completamente diferente da gente (ou mais ou menos diferente?).
  E esse céu? Me lembra mais as águas luminosas de um oceano em uma pintura do que um céu de um deserto, propriamente.
  No final do horizonte o azul do céu marinho se confunde com uma paisagem distante que não é mais céu; mas também é azul.
  Por que quê eu escolhi essa imagem?
 Porque tinha que escolher uma foto e escrever algo sobre ela. Porque não me senti seduzido pelas outras fotos, a não ser a primeira da escadaria e do ciclista. Porque vejo - agora que me coloquei a analisar ela - que essa colagem me da a sensação de mais uma forma de ilustrar do que de fotografar, e isso me interessa muito - tanto que sou desenhista.
  Podem dizer que escolhi então por uma razão pessoal - mas que escolha não é uma escolha pessoal em arte? - Isso é arte - O que é arte?
  Se eu continuar eu vou escrever texto longuíssimo. Então vou parar aqui meu livre pensamento ativado pela imagem em resultado com o momento e comigo próprio.
  (Isso pode parecer confuso, mas porque eu não posso ser confuso?)



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  Uma moça em um lugar está caminhando diante de webcam, que capta os movimentos dela e cenas serão cortadas dessa ação para compor um trabalho fotográfico. É interessante porque a gente percebe que a fotografia tem outras possibilidades do que, simplismente, um cara que para e tirar uma fotografia. E percebendo isso percebo o quanto essa atividade e analise dela pode ser interessante.
  Muita coisa pode ser interessante dependendo da forma que a  gente faz. Acho que  deveríamos estar sempre buscando descobrir coisas diferentes. Buscar coisas diferentes ao invés de se alienar a uma coisa só.
   Uma moça diante de uma parede bege com uma porta - derrepenti pode ser um guarda roupa - E ela está diante da webcam que se encontra no meio e do outro lado a kilometros de distância está o fotografo. Vejo as posições ocupadas em pontos geográficos de cada personagem; e a posição que eu ocupo em meu quarto no bairro Jardim América cuja as ruas tem cada qual um nome de um país (a que eu moro é a rua Equador).
   Estando em posições diferentes, em pontos diferentes,  somos conectados por essa imagem fotográfica.
  Então coloquemos mais uma coisa na lista grande de papéis da fotografia que já disse no texto anterior. Essa coisa a mais é: conectar  pessoas localizadas em pontos diferentes. Aliás, esse vai ser o titulo do texto -
          Conectar pessoas localizadas em pontos  diferentes
  Como eu tive a ideia de dar um titulo a esse texto e a ideia surgiu no meio do texto, então o titulo fica no meio do texto.
  Conectar para que? Para ver. Só para ver? Não para ver. Para dizer. Dizer o que? Dizer que existe pelo menos um ser humano (entre bilhões) que tem algo a te dizer, sendo que, ela diz nas cenas, ele diz nas escolhas e recortes fotográficos que ele faz nas cenas, eu digo nessa interpretação minha. Interpretação que pode não ter nada a ver, mas é algo que está sendo dito. E a professora também ao escolhe essa foto ela também participa dessa conexão e diz algo.
  E se a foto não for apenas uma foto? E se por exemplo, a personagem sair da foto e pudermos olhar a cena sem a personagem? E a personagem sentada do nosso lado desse o seu ponto de vista para gente? E nós entrarmos dentro da foto e fumarmos um cigarro?
 Mas não daria certo porque eu não sei fumar. Eu me engasgo com a fumaça.
  HAHAHAHAHA...

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Anacrônico e anticontemporâneo



  A oralidade é uma coisa muito boa quando as pessoas tem tempo de ouvir umas as outras e estão dispostas a ouvir umas as outras. No mundo de hoje é complicado, pois há um volume de informações que a gente tem que resumir em poucas palavras, mas nem tudo dá para ser dito em poucas palavras, nem deve ser dito em poucas palavras. Então é um mundo onde em muitos pontos o pensamento é anulado por uma mania de síntese. Uma obsessão de colocar tudo em frases curtas e apresentar aos amigos no facebook. Em frases curtas e apresentar aos alunos no PowerPont. Em frases breves anunciar as mercadorias a venda. As leituras lentas com o intuito de se aprofundar no que realmente o autor quer dizer não são possíveis porque nós temos uma pilha de novas leituras que também teremos que ler sem ter tempo de se aprofundar (sequer se lê um livro inteiro. Se lê o capitulo tal do livro tal e o resto é desprezado).

   A leitura do romance é algo estranho para as pessoas do mundo de hoje (inclusive para boa parte dos próprios estudantes de letras) porque o romance é algo longo e hoje os intelectuais preferem ver filmes e ninguém sabe dizer nada sobre Machado de Assis, ou sobre Sartre ou sobre Jorge Luis Borges. O filme é mais rápido e fácil de ser digerível pelas pessoas do novo mundo. Antes os antigos se reuniam e contavam histórias. Hoje nos saraus muitos poucos se levantam para contar uma história. Não sabem contar história alguma. Leem poesias. É bonito. Mas eu prefiro histórias.

  Da pilha de leituras que os professores passam, penso que pelo menos uma das leituras, o professor deveria dizer: Essa eu quero que vocês leiam com calma e sem pressa. Mas simplesmente se coloca o monte de textos para a gente ler e digerir o mais depressa possível.  A universidade é um absurdo. Tanto que uma aluna do terceiro ano do mesmo curso que o meu, disse com bom humor: Se tu quer ser escritor, fuja da faculdade!!! Haahaha.

  As pessoas que costumam se aprofundar nas questões, são pessoas que causam problemas, pois elas notam contradições existentes nos padrões e não percebidas. Elas divulgam essas contradições e com isso causam embaraços aos que definem o padrão ou defendem o padrão estabelecido. Por isso entendo que essa pressa e volume de coisas que a sociedade exige dos indivíduos em todos os meios é uma forma de anular o questionamento que por ventura esses indivíduos possam vir a fazer quando eles conseguem se debruçar nessas questões todas e melhor entende-las. Atanásio Mykonias, um colega meu é professor de filosofia numa universidade federal de minas, diz: É a uma das formas que a sociedade capitalista criou para neutralizar os indivíduos e estes mesmos indivíduos realizarem as relações de produção como autômatos, paradoxalmente crendo-se livres dentro desse processo. Disso, todas as instituições existentes na sociedade capitalista reproduzem esse processo.

  Embora eu não concorde em absoluto com o meu colega,  percebo que as universidades estão dentro desse processo que ele fala (por mais que o discurso dos docentes e gestores desses centros se queira dizer diferente; não adianta nada fazer um discurso, mas ter uma prática diferente do discurso e reproduzir a mesma coisa que se diz que se quer fazer um rompimento.)

       Eu entrei na faculdade para receber o auxilio estudantil e poder fazer a minha arte sem a preocupação imediata de ter que fazer alguma coisa para ganhar dinheiro logo e garantir minha sobrevivência. Se não fosse isso eu acho que fugiria mesmo da faculdade. Daqui a pouco eu vou virar a barata do Metamorfose de Franz Kafka.

  O que me salva de não me tornar uma barata é leitura dos romances. Mas mesmo não me tornando uma barata, serei visto como uma barata, pois o meu gosto me torna anacrônico e anticontemporâneo.
...

  O bom leitor não é o que lê um monte de coisas apressadamente. É o que pode ler com calma, fazendo pausas para refletir o que está lendo. Relendo para melhor assimilar. A leitura não possui um relógio como o tempo de duração de um filme ou o tempo de duração de uma música gravada e guardada em arquivo. Na leitura o tempo pertence ao leitor. Cada leitor tem o seu tempo. Na leitura os nossos olhos podem se fechar em pensamentos e imagens novas e antigas criadas pela própria leitura, e podemos adormecer junto com os livros depois acordando e continuando a ler. A leitura é um ato de amor.

  Quem faz amor correndo, não faz amor.

 

                                                                                                Marco Marques

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A história da queda do império carbonifero

  Na cidade Galapagos, que tem o tamanho da Europa ocidental e duas vezes a população da China,  incumbi meu escritório de pesquisadores a tarefa de buscarem dados sobre novos autores de ficção do momento - quem são eles, o que eles estão escrevendo, o que eles próprios leem, etc.
  Dos diversos dados reunidos pelo meu escritório de pesquisas, uma das informações que achei mais curiosas é a que os leitores de ficção de Galapagos, leem em seus tablets, livros  que eles pescam na internet e guardam em microchips de computadores. Chips desses cabem bibliotecas alexandriânicas e podem ser comprados em qualquer lojinha de balas.
  Essas informações me deixaram pasmado, com cara de tonto, interessado e ao mesmo tempo medroso em relação as coisas novas dos novos tempos.
  Então fui buscar entender nos próprios dados reunidos o porquê dos tablets terem assumido o papel de mídia dominante na distribuição de ficção literária e em quadrinhos. O resultado que levou a isso foi que todos os territórios que forneciam árvores para as indústrias  de papel, que por sua vez vendia esse papel para outras indústrias fazerem jornais, livros, papel higiênico, calendários de mulheres nuas, bilhetes de loteria, etc, foram sendo reduzidos por vários fatores. Muitas terras foram invadidas por  bárbaros sem terra, que no lugar plantaram arroz, cogumelos fotossintesantes e capim para gado. Madeira para papel não interessa a esses povos de vida simples; uma vez que não se come papel. Outros territórios vendiam mais arvores do que o território tinha a capacidade de esperar novas mudinhas de eucaliptos crescerem para serem vendidas, não sobrando mais nada.
  Hoje o livro de papel em Galapagos é um artigo de luxo que custa 12 mil dolates. Ficou tão caro que surgiram no país quadrilhas especializadas em roubos de livros para venderem como diamantes. Livros de papel são transportados, para maior segurança, em carros fortes. Quem for filmado arrancando a página de um livro para fazer um baseado com ela, é punido em Galapagos com a pena de morte.
  Agora só é permitido enrolar baseado em folhas de mamona.

  A era celuósica encerrou-se a algumas décadas, dando inicio a era ciberdigital. Hoje a informação dura muito pouco e pode ser facilmente adulterada. Antes a imprensa consultava os historiadores e filósofos quando a opinião desses era a mesma do dono do dono da imprensa ou do agrado dos anunciantes. Hoje ninguém mais entende o que seja um filósofo e historiadores viraram meros especuladores - em que cada um defende sua hipótese de possível história, num infindável debate em torno do nada. 
  Então tudo que acabei de dizer não passa de uma hipótese com grande possibilidade de ser falsa? Sim. Mas eu sou apenas um rico mercador de ações de diversas empresas, sendo que umas sequer existem de verdade, mas elas me geram um bom capital.
  Mas voltando ao que estava dizendo... Eu falava sobre os autores de ficção da atualidade. Porque meu interesse por eles? Mera curiosidade? Não. Eu não tenho curiosidade alguma. É apenas porque nada dá tanto dinheiro hoje, como a indústria do entretenimento dá. 
   [...]
  O dinheiro cai numa conta num banco eletrônico. O dinheiro não é papel. É um saldo, um número positivo ou negativo. Quem tem dinheiro negativo - números negativos no sistema de créditos - torna-se escravo do sistema. Claro que não é uma escravidão declarada. Isso não pode ficar claro, pois se ficar começam a questionar o sistema de créditos e os donos do sistema de créditos. Então se faz necessário a venda da ilusão de liberdade.
   [...]
  ... estar num barco no oceano...
   [...]
  Em Galapagos, 80% do que é lido são autores novos. Há um pequeno nicho de leitores dos autores velhos. Autores novos são os que publicaram algo a no mínimo uma semana atrás. Autores velhos tem entre duas ou três semanas de velhice. Mais velho que isso é trabalho para paleontólogo buscando a literatura de tempos imemoriais, nas cinzas de vestígios da poeira de papel em porões de cidades em ruínas. 
  Esses leitores amantes de ruínas colocam a culpa de tudo nos tablets. Isso porque com os tablets qualquer idiota pode enviar seu livro por e-mail, e diante do excesso de produções literárias no ar, as pessoas já não sabem separar o joio do trigo.
  A Sociedade Galapagenese de Letras, contradiz dizendo: "Estes que dizem que autor novo algum presta, e que demonizam os tablets, são uns homens das cavernas que não sabem perceber que todos podem produzir boa literatura. Esta época produz muita dá boa!"
  Polêmicas a parte; a cidade de Galapagos se especializou na produção de tablets - tanto para suprir seu grande mercado interno, quanto para exportação para o resto do mundo. E apesar de o Estado continental, neste ano de 3025, cobrar altos impostos alfandegários por causa da política protecionista da empresa nacional, eu vou agora comprar um tablet baratinho no comércio milenar da 25 de março.
  Será que os chips de memória já vem com bastante conteúdo e tem calendários digitais de mulheres nuas?