Nós-lírico
Eu comecei escrevendo uns textos comentando umas fotografias cumprindo uma tarefa do curso de Genealogia
das Artes Visuais.
Dá um certo medo fazer cursos
assim porque depois que fazemos pode ser que as pessoas comecem a fazer
perguntas para a gente considerando o nosso ponto de vista como o de “especialistas”.
É mais agradável dar a opinião como leigo, porque assim a gente pode dizer
qualquer besteira e ser pueril a vontade.
Ocorre que essa foto com a frase no edifício: “PHOTO OF A SKINNY WHITE
GIRL” deve ser a progenitora da que fiz com a garrafa térmica. Eu gostei dela
mais do que a outra opção. Aí vou e faço um trabalho com foto e texto também.
Evidentemente são trabalhos diferentes no tema e certamente também nos motivos.
Mas não consigo imaginar a existência de um sem outro. O primeiro existe sem o
segundo. Mas o segundo não existe sem o conhecimento do primeiro.
Os trabalhos de arte são filhos gerados pelos artistas que o fazem. Mas
eles não nascem puramente do artista sem relação com nada. Eles nascem do
artista com relação com outras coisas que podem ser: as pessoas próximas,
outros trabalhos de arte, a ausência de outras coisas que o artista gostaria de
ver e não vê, a necessidade de fazer alguma coisa por diversos motivos, e tudo
isso junto.
A foto com o texto da garrafa térmica nasceu do momento em que vi a
garrafa térmica diante de mim, somado a necessidade de ter que fazer algo,
junto com a lâmpada que vai se ascender na minha cuca no momento da ideia e
somado a referências anteriores. Posso até estar enganado, mas duvido que eu
produziria uma foto com um texto se não fosse PHOTO OF A SKINNY WHITE GIRL. Na
verdade nem tem como verificar isso; mas é o meu palpite (é algo que tem tudo
haver comigo pois a escrita e a imagem são duas coisas com as quais eu trabalho
e gosto).
Alguém pode até dizer: ESSE TRABALHO É UMA DROGA!
Mas esse trabalho é minha criança. Eu gosto dela.
Ser artista é ser uma mãe sempre
pronta a parir um novo filho. A gerar com o mundo que nós penetra um filho que
por sua vez vai penetrar no mundo (mesmo que não seja percebido)
O segundo trabalho - que é apenas um texto - surgiu de uma conversa que
tive com Diogo. Ele me pediu a opinião sobre um trabalho dele e eu disse que
achava legal, mas eu via muito o eu e estou farto do eu que vejo a maioria dos
artistas se restringirem.
VocÊ pode fazer coisas incríveis se restringindo apenas a perspectiva do
eu. Muitos artistas fazem (principalmente poetas). Mas eu tenho um
posicionamento teórico em relação a arte que me faz considerar ela como algo
num ponto além deste ponto simplismente do eu.
Uma vez estava numa discussão com professores de filosofia, artistas,
intelectuais e um deles disseram uma coisa que me causou incomodo e tédio. Ele
disse: “A arte cumpre a função de revelar nossa verdade. De colocar o nosso
eu nu.” - Não considero isso uma mentira;
mas me incomodou eles restringirem a arte a apenas isso. A arte é algo que está
bem além disso.
A arte não é apenas o artista se desnudando e revelando o seu “eu”. A
arte também é o artista contando mentiras. É o artista também colocando
mascaras e trocando a cada lance de mascara. Utilizando disfarces. O
artista ao mesmo tempo que ele se desnuda, ele também se cobre de mil novas
faces e possibilidades. E eu posso não entender nada de artes plásticas e de
poesia, mas eu sei que os grandes romancistas são caras que constroem o outro. Claro que é o outro sob a
perspectiva do eu-autor. O outro a partir de escolhas arbitrárias do autor. Do
que o autor acha importante dizer. Mas já não é se restringir ao eu. É uma
tentativa de construção da sensibilidade do outro. Já não se trata
simplesmente do que eu sinto, do que eu quero, do que eu penso. Quem quer
apresentar as suas ideias escreve filosofia. Quem quer falar de si escreve um diário. Ambos podem ser expressos de
forma artística muito interessante. No caso do diário é a literatura de
memórias ou o álbum de fotos de acontecimentos particulares. Podem ser
esteticamente muito interessantes. Belas artes. Mas para mim é insuficiente.
Para Fernando Pessoa era tão insuficiente que ele criou os heterônimos.
O trabalho de arte do ponto de vista da construção de significados
supera a filosofia. Não se trata apenas do olhar do autor. Mas se trata do
olhar dos outros e da tentativa de
construção da sensibilidade dos outros. Já não interessa mais simplesmente o
olhar do artista. Mas o olhar do artista sobre o olhar de uma outra pessoa. O
olhar dessa outra pessoa sobre outro. A construção no trabalho de arte de
pontos de vista de outras pessoas. Sempre vai haver a subjetividade do autor
que vai escolher a forma como ele vai fazer isso e o que ele acha importante de
apresentar. Mas já não se trata do eu-lirico. Não se trata de simplesmente
autor com sua enxurrada de sentimentos. É algo muito mais complicado. É algo que
vocÊ vai ver e não vai poder dizer: “Esse é o modo de pensar do autor”. Porque vocÊ
estará em contato com outras sensibilidades e não com uma simples copia em
outra versão do autor.
Então o que eu fiz foi perguntar para as pessoas o que elas pensam sobre
a ideia: EU CONFIO EM VOCÊ.
Foi algo curto como demonstra o texto. Mas que eu considero
surpreendente. As respostas que as pessoas deram foram incríveis.
Se trata somente de um trabalho experimental. Mas que serve de base e
inicial para outros trabalhos mais complexos e amplos que desejo fazer.
Está ligado com uma intenção política de conectividade com as pessoas
saindo apenas do artista intelectual que se restringe as suas referencias e aos
colegas com quem ele se identifica? Embora isso também seja uma necessidade e
uma intenção minha que dou grande valor, eu até aqui nesse texto em particular
estava somente me referindo ao plano estético.
A arte não se trata somente do autor. É algo que nasce do autor em
comunhão com o outro. VocÊ não pode dizer que um filho seu é você. Ele tem uma
personalidade própria. Aliás, ... Em
comunhão e em conflito; Nasce do caos, do desejo, do tédio, do amor, da
solidão, da loucura, da razão, da derrota, do esquecimento, da lembrança,
etc...
Um viajante como o Sebastião Salgado, um entrevistador de pessoas comuns
como o Ignácio de Loyola Brandão, um mergulhador que submergi na psique humana
como o Freud; todos encaram esse desafio emocionante e duro de viajar para
dentro do outro.
Escrever uma teoria sobre uma teoria que falava de outra teoria; que
coisa mais chata e inútil. Os estudantes não passam nem 20% do tempo deles na
rua pesquisando, falando com as pessoas. A universidade não ensina os
estudantes a fazer isso. É sempre um olho só para o próprio umbigo.
A quarta opção é esse texto reflexivo. Não o considero um trabalho de
arte embora aja arte nele.
A quinta opção que coloco nessa constelação é uma fotografia que recortei de um vídeo. Porque faz parte da constelação? Porque faz parte da história particular de elaboração desses trabalhos. É uma ideia que tinha tido antes, mas não tinha colocado em prática. É algo que considero interessante, embora eu esteja sentido uma imensa tristeza pelo homem de balão azul sozinho. Coitado dele.
A sexta coisa que coloco nessa constelação é página postada no Facebook
por ti professora, sobre os livros pessoas. Eu poderia também ter colocado o
livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, ou a película baseada neste mesmo livro,
dirigida por François Truffaut. Mas aí seria muito obvio, sei lá.
A sétima coisa foi o meu blog que já estava a um tempinho sem publicar
nada nele, e agora vou publicar esses textos nele. Ele não tem leitores. As pessoas
que gostam do que eu escrevo me liam por e-mail e agora na Facebook. Uns gatos
pingados.
Mas um dia eu vou ser um artista cultuado e meu blog teatro-bar vai ter
milhões de leitores (risos).
(eu optei por explicar tudo nesse texto como
quinto elemento da constelação do que por colocar uma explicação abaixo de cada
coisa porque eu acho isso chato, e já esse texto eu acho legal. É diferente
destes textos acadêmicos que eu quase sinto vontade de me matar)

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