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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A história da queda do império carbonifero

  Na cidade Galapagos, que tem o tamanho da Europa ocidental e duas vezes a população da China,  incumbi meu escritório de pesquisadores a tarefa de buscarem dados sobre novos autores de ficção do momento - quem são eles, o que eles estão escrevendo, o que eles próprios leem, etc.
  Dos diversos dados reunidos pelo meu escritório de pesquisas, uma das informações que achei mais curiosas é a que os leitores de ficção de Galapagos, leem em seus tablets, livros  que eles pescam na internet e guardam em microchips de computadores. Chips desses cabem bibliotecas alexandriânicas e podem ser comprados em qualquer lojinha de balas.
  Essas informações me deixaram pasmado, com cara de tonto, interessado e ao mesmo tempo medroso em relação as coisas novas dos novos tempos.
  Então fui buscar entender nos próprios dados reunidos o porquê dos tablets terem assumido o papel de mídia dominante na distribuição de ficção literária e em quadrinhos. O resultado que levou a isso foi que todos os territórios que forneciam árvores para as indústrias  de papel, que por sua vez vendia esse papel para outras indústrias fazerem jornais, livros, papel higiênico, calendários de mulheres nuas, bilhetes de loteria, etc, foram sendo reduzidos por vários fatores. Muitas terras foram invadidas por  bárbaros sem terra, que no lugar plantaram arroz, cogumelos fotossintesantes e capim para gado. Madeira para papel não interessa a esses povos de vida simples; uma vez que não se come papel. Outros territórios vendiam mais arvores do que o território tinha a capacidade de esperar novas mudinhas de eucaliptos crescerem para serem vendidas, não sobrando mais nada.
  Hoje o livro de papel em Galapagos é um artigo de luxo que custa 12 mil dolates. Ficou tão caro que surgiram no país quadrilhas especializadas em roubos de livros para venderem como diamantes. Livros de papel são transportados, para maior segurança, em carros fortes. Quem for filmado arrancando a página de um livro para fazer um baseado com ela, é punido em Galapagos com a pena de morte.
  Agora só é permitido enrolar baseado em folhas de mamona.

  A era celuósica encerrou-se a algumas décadas, dando inicio a era ciberdigital. Hoje a informação dura muito pouco e pode ser facilmente adulterada. Antes a imprensa consultava os historiadores e filósofos quando a opinião desses era a mesma do dono do dono da imprensa ou do agrado dos anunciantes. Hoje ninguém mais entende o que seja um filósofo e historiadores viraram meros especuladores - em que cada um defende sua hipótese de possível história, num infindável debate em torno do nada. 
  Então tudo que acabei de dizer não passa de uma hipótese com grande possibilidade de ser falsa? Sim. Mas eu sou apenas um rico mercador de ações de diversas empresas, sendo que umas sequer existem de verdade, mas elas me geram um bom capital.
  Mas voltando ao que estava dizendo... Eu falava sobre os autores de ficção da atualidade. Porque meu interesse por eles? Mera curiosidade? Não. Eu não tenho curiosidade alguma. É apenas porque nada dá tanto dinheiro hoje, como a indústria do entretenimento dá. 
   [...]
  O dinheiro cai numa conta num banco eletrônico. O dinheiro não é papel. É um saldo, um número positivo ou negativo. Quem tem dinheiro negativo - números negativos no sistema de créditos - torna-se escravo do sistema. Claro que não é uma escravidão declarada. Isso não pode ficar claro, pois se ficar começam a questionar o sistema de créditos e os donos do sistema de créditos. Então se faz necessário a venda da ilusão de liberdade.
   [...]
  ... estar num barco no oceano...
   [...]
  Em Galapagos, 80% do que é lido são autores novos. Há um pequeno nicho de leitores dos autores velhos. Autores novos são os que publicaram algo a no mínimo uma semana atrás. Autores velhos tem entre duas ou três semanas de velhice. Mais velho que isso é trabalho para paleontólogo buscando a literatura de tempos imemoriais, nas cinzas de vestígios da poeira de papel em porões de cidades em ruínas. 
  Esses leitores amantes de ruínas colocam a culpa de tudo nos tablets. Isso porque com os tablets qualquer idiota pode enviar seu livro por e-mail, e diante do excesso de produções literárias no ar, as pessoas já não sabem separar o joio do trigo.
  A Sociedade Galapagenese de Letras, contradiz dizendo: "Estes que dizem que autor novo algum presta, e que demonizam os tablets, são uns homens das cavernas que não sabem perceber que todos podem produzir boa literatura. Esta época produz muita dá boa!"
  Polêmicas a parte; a cidade de Galapagos se especializou na produção de tablets - tanto para suprir seu grande mercado interno, quanto para exportação para o resto do mundo. E apesar de o Estado continental, neste ano de 3025, cobrar altos impostos alfandegários por causa da política protecionista da empresa nacional, eu vou agora comprar um tablet baratinho no comércio milenar da 25 de março.
  Será que os chips de memória já vem com bastante conteúdo e tem calendários digitais de mulheres nuas?

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