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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Anacrônico e anticontemporâneo



  A oralidade é uma coisa muito boa quando as pessoas tem tempo de ouvir umas as outras e estão dispostas a ouvir umas as outras. No mundo de hoje é complicado, pois há um volume de informações que a gente tem que resumir em poucas palavras, mas nem tudo dá para ser dito em poucas palavras, nem deve ser dito em poucas palavras. Então é um mundo onde em muitos pontos o pensamento é anulado por uma mania de síntese. Uma obsessão de colocar tudo em frases curtas e apresentar aos amigos no facebook. Em frases curtas e apresentar aos alunos no PowerPont. Em frases breves anunciar as mercadorias a venda. As leituras lentas com o intuito de se aprofundar no que realmente o autor quer dizer não são possíveis porque nós temos uma pilha de novas leituras que também teremos que ler sem ter tempo de se aprofundar (sequer se lê um livro inteiro. Se lê o capitulo tal do livro tal e o resto é desprezado).

   A leitura do romance é algo estranho para as pessoas do mundo de hoje (inclusive para boa parte dos próprios estudantes de letras) porque o romance é algo longo e hoje os intelectuais preferem ver filmes e ninguém sabe dizer nada sobre Machado de Assis, ou sobre Sartre ou sobre Jorge Luis Borges. O filme é mais rápido e fácil de ser digerível pelas pessoas do novo mundo. Antes os antigos se reuniam e contavam histórias. Hoje nos saraus muitos poucos se levantam para contar uma história. Não sabem contar história alguma. Leem poesias. É bonito. Mas eu prefiro histórias.

  Da pilha de leituras que os professores passam, penso que pelo menos uma das leituras, o professor deveria dizer: Essa eu quero que vocês leiam com calma e sem pressa. Mas simplesmente se coloca o monte de textos para a gente ler e digerir o mais depressa possível.  A universidade é um absurdo. Tanto que uma aluna do terceiro ano do mesmo curso que o meu, disse com bom humor: Se tu quer ser escritor, fuja da faculdade!!! Haahaha.

  As pessoas que costumam se aprofundar nas questões, são pessoas que causam problemas, pois elas notam contradições existentes nos padrões e não percebidas. Elas divulgam essas contradições e com isso causam embaraços aos que definem o padrão ou defendem o padrão estabelecido. Por isso entendo que essa pressa e volume de coisas que a sociedade exige dos indivíduos em todos os meios é uma forma de anular o questionamento que por ventura esses indivíduos possam vir a fazer quando eles conseguem se debruçar nessas questões todas e melhor entende-las. Atanásio Mykonias, um colega meu é professor de filosofia numa universidade federal de minas, diz: É a uma das formas que a sociedade capitalista criou para neutralizar os indivíduos e estes mesmos indivíduos realizarem as relações de produção como autômatos, paradoxalmente crendo-se livres dentro desse processo. Disso, todas as instituições existentes na sociedade capitalista reproduzem esse processo.

  Embora eu não concorde em absoluto com o meu colega,  percebo que as universidades estão dentro desse processo que ele fala (por mais que o discurso dos docentes e gestores desses centros se queira dizer diferente; não adianta nada fazer um discurso, mas ter uma prática diferente do discurso e reproduzir a mesma coisa que se diz que se quer fazer um rompimento.)

       Eu entrei na faculdade para receber o auxilio estudantil e poder fazer a minha arte sem a preocupação imediata de ter que fazer alguma coisa para ganhar dinheiro logo e garantir minha sobrevivência. Se não fosse isso eu acho que fugiria mesmo da faculdade. Daqui a pouco eu vou virar a barata do Metamorfose de Franz Kafka.

  O que me salva de não me tornar uma barata é leitura dos romances. Mas mesmo não me tornando uma barata, serei visto como uma barata, pois o meu gosto me torna anacrônico e anticontemporâneo.
...

  O bom leitor não é o que lê um monte de coisas apressadamente. É o que pode ler com calma, fazendo pausas para refletir o que está lendo. Relendo para melhor assimilar. A leitura não possui um relógio como o tempo de duração de um filme ou o tempo de duração de uma música gravada e guardada em arquivo. Na leitura o tempo pertence ao leitor. Cada leitor tem o seu tempo. Na leitura os nossos olhos podem se fechar em pensamentos e imagens novas e antigas criadas pela própria leitura, e podemos adormecer junto com os livros depois acordando e continuando a ler. A leitura é um ato de amor.

  Quem faz amor correndo, não faz amor.

 

                                                                                                Marco Marques

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