Poesia, para mim, é a essência da arte. Toda arte é poesia. Narrativa tem haver com um momento se passando na ilusória linha temporal. Toda arte possui uma narrativa - por fazer parte de de algum momento (mesmo sendo um momento ilusório, uma vontade, um temor, um sonho). No entanto, entre as artes todas, eu percebo (eu sinto) a existência de dois caminhos, ou de duas artes diferentes nas quais as artes existentes se dividem. A arte narrativa: prosa, teatro, histórias em quadrinhos, cinema. E a arte poética: Poesia, pintura, música, dança, outras - Quando dizemos alguma sobre algo, as pessoas que notam apenas o significado comum do que foi dito, dizem, nesse caso por exemplo: "Como você pode falar em arte narrativa e em arte poética, quando você mesmo diz que toda arte é poesia e toda arte tem narrativa? Não são dois estereótipos?" Ah! O estereótipo não está nas palavras. Está no julgamento equivocado delas. E quando digo delas, não estou falando do julgamento feito pelas palavras, mas sim das inúmeras interpretações diferentes que as pessoas podem fazer do que elas leem ou ouvem. Algumas dessas interpretações são estereotipações. Quando dizemos uma palavra a outra pessoa, o que estamos fazendo é tentar comunicar uma sensação (algo existencial; que sentimos). A filosofia, dita, não é o aprisionamento das sensações. A filosofia expressa é uma tentativa objetiva de comunicar o subjetivo (a percepção pessoal). Uma tentativa (talvez utópica) de comunicar sensações. Então parem de me encher o saco e me deixem ser utópico.
Continuando...
A ligação entre a arte narrativa e o momento temporal, faz dela uma memória. Peguemos como exemplo um retrato. Olhamos para o retrato, e se não houver uma memória que narre o retrato - narre coisas que vivemos ou sentimos ligadas a ele - sem nenhuma narrativa esse retrato não existe diante dos nossos olhos. A arte abstrata é arte que chega mais próxima da possibilidade não-narrativa. O retrato é uma arte poética e a narrativa será nossa memória. Retratos juntos podem ser uma narrativa, mas uma narrativa não vai ser presente em uma sala com uma lâmpada, uma mesa, as paredes, um tapete no meio do piso branco. A narrativa vai acontecer se um pássaro passar voando no retrato - na cena - voando e depois poderá haver um novo retrato com uma pena do pássaro sobre a mesa (o retrato sem a pena e o retrato com a pena; dois retratos já compõe uma narrativa). Somente um retrato, sem a pena ou com a pena, será pura poesia - então a narrativa será a memória sobre o pássaro que vimos passar pela cena, seja na realidade, seja no pensamento.
Isso quer dizer que a arte narrativa é arte com movimento?
A arte narrativa é uma astuta combinação de retratos de modo a narrar algo (contar uma história). Por vezes a mobilidade é tanta, que, se chamará de arte narrativa a própria mobilidade. Mas a mobilidade por si não é arte. Os retratos dão a nota para que aja a mobilidade. A arte narrativa precisa da concordância sintática para que seja possível ler a história na mobilidade. Então é a mais objetiva da artes. Mas a graça da arte narrativa é a subjetividade das personagens, em acordo e desacordo com a objetividade dos fatos, na objetividade subjetiva do narrador
A dança tem movimento. Ela é uma arte narrativa?
Sim e não.
Quando assistimos uma dançarina desenhando círculos e saltos, movimentos do corpo dela, que desaparece da cena logo que são feitos, para ficarem inscritos em nossa memória, temos uma arte narrativa. No entanto, esse movimento da dançarina não se propõe necessariamente a contar uma história. Se propõe a escrever versos com o corpo dela. Ela nem acompanha o mesmo movimento da arte narrativa, porque já entra fora dele, e dentro do movimento da arte poética. Temos um corpo objetivo, o lugar físico que ela dança objetivo, mas esse corpo é como as pinceladas de um pintor abstrato, usando a tinta objetiva sem estar preocupado em compor a cena objetiva. Ela no cotidiano não caminha na rua dançando, (ou segundo o que entendemos ser dança), não come dançando, não trepa dançando (talvez até trepe dançando); a dança é uma transgressão do comum. No que ela transgride, ela passa a ser poesia. Por isso chamo a dança de arte poética. Não porque a narrativa não seja seja presente na dança. Mas sim porque a poesia é muito mais presente.
O teatro -
O teatro que as vezes é dança e teatro. Que as vezes fica tão absurdo, que a arte narrativa se dilui em arte poética (ou o absurdo não seria a arte narrativa e a poética uma tentativa de encontrar algo?). O teatro é muito plural. Eu só chamo o teatro de arte narrativa, porque enquanto ele não rompe totalmente ou quase totalmente com a narrativa, nós chamamos o teatro de teatro. Quando ele rompe, nós o chamamos de dança.
A poesia -
A melhor fala sobre o que seja poesia, foi o que ouvi um critico de Bocage dizer sobre o modo de escrever poesias de Bocage. Ele disse: "Bocage é um poeta que faz artesanato com as palavras". Acho que nisso ele disse o que é poesia. "A arte que usa as palavras para fazer artesanato."
A poesia se ocupa em expressar-se fazendo uma dança com as palavras e com o sentido delas, e elas podem dizer muito ou dizer nada, a gente gosta é de ver a dança. Enquanto a prosa usa elas do jeito comum, o poeta é um prosador bêbado, e nessa embriaguez a gente acha graça no jeito como ele conta as coisas; mesmo que diga coisa com coisa. Há uma poesia em prosa, assim como também temos prosas poéticas. Talvez, quando fica difícil dizer o que é prosa e o que é poesia, nos temos a arte hermafrodita. ... A questão é que temos uma percepção da prosa quando nós notamos uma história sendo narrada (ela tem começo, meio e fim, independente de estar ou não nessa ordem). Na poesia, notando ou não a narrativa, ela nos embriaga e a nossa sensação é de embriaguez (Então o poeta serve-nos o vinho, e quando achamos que ele é o bêbado, somos nós que estamos de porre e vendo elefantes brancos).
A música -
Uma vez numa palestra numa palestra com artista de teatro, uma mulher mestra em teoria da arte, me fez entender que gostamos da arte abstrata, mesmo sem saber que gostamos. Nenhuma arte é capaz de nos mostrar isso, tanto como a música o é. Quando ouvimos uma música em um idioma que não compreendemos, ainda sim gostamos da música. Ela é abstrata (não existe o abstrato no absoluto. Existe o pouco comum a nosso entendimento. Chamamos esse "incomum" de abstrato), uma vez que não a entendemos. Ela é poética, uma vez que nos causa vertigem. Fico puto quando vejo, e vejo muito, as pessoas quererem criticar a música pelo conteúdo da letra. Fazem essa critica como se o músico tivesse a obrigação de compor uma arte narrativa literária de "bom gosto". Ah! Vão para o inferno! O músico não tem a obrigação de agradar vosso gosto literário. A música é uma arte sonora. Se o música é uma arte sonora. Se o músico consegue escrever um bom texto literário, além de fazer música, ele merece ser elogiadíssimo pelo feito. Mas se ele não faz, dane-se. O importante é que ele faça música. Quem quer boas letras, vai ler um livro, porra!
O cinema -
O cinema geralmente é uma arte narrativa, mas as vezes pode ser menos narrativo e mais poético. Uma vez eu disse disse a um colega cineasta (Peterson Queiroz) que eu gostava dos videosclipes: "são um cinema poético". Ele disse que os videosclipes tinham um problema. Eu perguntei qual. Ele respondeu: A música (risos). Oras! O cinema moderno é audiovisual; se tiram a música, tiram o áudio. Podem ou não colocar outro áudio; mas é verdade... O cinema nos videoclipes são uma mera ilustração da música. Eles não estão em primeiro plano. São como ilustrações num romance. Dão uma enfeitada no romance, mas o romance não depende deles como arte.
O cinema que que realmente se propõe a ser uma arte poética, ao invés de arte narrativa, tem seus adoradores. Os filmes ficam bem esquisitos. Se há quem goste, há quem durma (eu).
HQ -
As histórias em quadrinhos são um meio termo entre a literatura e o cinema, ou entre a literatura e o teatro. Assim como na literatura, as histórias em quadrinhos não tem um tempo de leitura delimitado (cada leitor lê ela no seu tempo subjetivo). Assim como o teatro e o cinema, o ícone visual entra nas histórias em quadrinhos (minha adorada arte).
Falando das histórias em quadrinhos, volto ao começo desse artigo-ensaio, os retratos. Nessa arte você tem quadros que se colam para compor um movimento narrativo. Dentro do próprio quadro você terá recursos no traço e na onomatopeias para dar a sensação de som e movimento (som, que alias é uma forma de movimento do ar. O ruído das vibrações do ar em movimento). Mas o HQ se realiza mesmo como arte narrativa com os quadros se interligando e essa ligação nos contando uma história.
Aqui eu chego ao fim desse belo artigo-ensaio - belo porque eu adoro todos os textos (risos). Espero ter conseguido dizer algo fundamental sobre a arte.
Ah! Já ia me esquecendo...
A arte narrativa é uma composição que caminha, e em sua caminhada nos leva (ou não) a uma cartase. Ela é temporal, mas a cartase nos tira para fora de qualquer tempo. A arte poética é a arte que se propõe a ser a própria cartase.
Mas dá para falar em cartase com narrativas contemporâneas que não chegam aos pés da grandiloquência da tragédia grega?
Então eu corrijo a palavra. Ao invés de cartase, digo: êxtase, ou orgasmo, se preferirem. Existe a volúpia intensa e avassaladora. Existe o sexo lento, suave, vagaroso, gostoso (no prazer da lentidão). O êxtase poético da narrativa ou da poesia, não precisa ser necessariamente uma explosão. Pode ser a ocorrência de uma picada de um bicho bem pequeno - que a gente nem vai perceber - mas que depois da picada, já está gerando os efeitos no nosso organismo e mudando a gente. Com sutileza do artista, ou com estardalhaço do mesmo, somos levados pelo êxtase da arte.
Como a busca pela arte deriva de um gosto por ela, e não de um interesse além dela, a relação entre público de arte e arte, é um ato de amor. Ambos fazem amor um com o outro.
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