A associação ao pensamento de esquerda ou de direita, partindo de uma abordagem que coloca como centro de gravidade a noção de natureza humana, é algo que menos dá uma noção do que sejam essas duas grandes tendências políticas, na verdade mais confundindo as pessoas sobre o significado dessas noções. Tendências essas que se rivalizam e se complementam (aliás; dizer que se complementam é um dito bem de centro. Mas deixo para filosofar sobre isso mais a frente.)
Uns apresentam como geneticamente esquerdista a ideia rousseauniana de uma bondade presente na essência dos humanos. Isso de modo que o ser humano seria, em tese, bom por natureza e corrompido pela sociedade. Então a solução seria uma grande ruptura com a sociedade contemporânea , de modo que em uma nova sociedade o ser humano possa desenvolver suas potencialidades boas. Em contraposição, o pensamento de direita seria - e muitas vezes o é - uma abordagem pessimista da natureza humana. Em tese significa que os problemas do indivíduo na sociedade, é mero reflexo ampliado dos indivíduos em particular. A ideia é dizer que o ser humano - para o bem e para o mal - se faz na ação privada.
É falso a ideia de que a visão de esquerda sobre a natureza humana seja necessariamente otimista, e a de direita seja necessariamente pessimista. Émile Zola, por exemplo, é de esquerda e em livros como por exemplo, A besta humana, a abordagem da natureza humana é pessimista. Para ele o ser humano é um animal esfomeado, sexual e agressivo. Então nesse caso seria o contrário. A sociedade deveria ou deve, em tese, ser modificada de modo a dar melhores condições sociais ao indivíduos, assim fazendo uma redução máxima possível da bestialidade humana. Já do ponto de vista da direita; também pode-se apresentar como otimista a visão romântica do progresso técnico, e melhoria das condições apresentadas como resultado da capacidade criadora dos homens. Nesse sentido, então o homem é bom, desde de que ele aja sem ficar esperando revoluções ou coisa do tipo.
A partir do momento que o ser humano passa a ser visto como alguém bem complexo, sendo bom e sendo mal ao mesmo tempo, com igualdade ou sem igualdade, diferente de si e diferente dos outros, tanto os intelectuais de esquerda quanto de direita, cada qual a sua maneira, assimilaram esta percepção existencialista do indivíduo (como também velhas ideias permanecem, mistura de concepções, estereotipações, etc)
Uma segunda possibilidade é dizer que esquerda seria uma postura de ruptura com o contemporâneo, na expectativa de um futuro melhor, enquanto que direita é uma postura conservadora das bases políticas e econômicas da sociedade contemporânea. Mas em sociedades que a esquerda chegou ao poder através do voto ou de revoluções, essa regra de esquerda transgressora e direita conservadora, vale? Na história, conservadores e transgressores há de muitos tipos. Apresentar um como direita e outro como esquerda, é dizer algo vago - que não explica as questões direito, e até confunde o entendimento.
Então, qual seria a melhor designação de esquerda e de direita no contemporâneo?
Sem negar outras designações, nem afirmá-las, dentro da experiência política do contemporâneo, entendo que a melhor explicação sobre o que é esquerda e o que direita, é a explicação de âmbito político e econômico (uma vez que esses dois termos são termos mais políticos e econômicos do que outra coisa). Vamos então a resposta: ...
Direita são aqueles que posicionam-se em defesa da propriedade privada, geralmente colocando isso em primeiro plano. Esquerda são aqueles que defendem um distributivismo, ou uma distribuição mais equitativa das riquezas produzidas pelas sociedade, assim como também da possibilidade de produzi-las. Ser de esquerda não é ser contra a propriedade privada. Ser de esquerda é ser contra o abuso do direito a propriedade privada, e ser alguém que defende com mais insistência a propriedade pública.
Um exemplo de abuso da propriedade privada é: Num país de proporções continentais como é o Brasil, o abuso da propriedade privada é tanto, que, milhões de cidadãos sequer possuem um terreno onde possam construir suas casas e morar com seus familiares. Evidentemente isso se deve ao abuso da propriedade privada da terra, motivado pelo interesse de poucos em detrimento da necessidade de muitos. Também há o abuso da propriedade pública, que em outras palavras é uma interferência exacerbada do Estado na vida privada das pessoas. Obviamente não deve, ou não deveria, haver abuso de propriedade alguma.
O detalhe é que eu falei da esquerda e da direita em tese. Agora falemos um pouco sobre ambos no hoje.
No dia a dia a direita não se manifesta a favor da propriedade privada num sentido amplo. Pode até se dizer que discurso de defesa do indivíduo e do direito privado por parte da direita, é mais ideológico do que prático. Na realidade prática a direita se manifesta a favor da propriedade privada daqueles que mais a possuem. Ou, dos detentores do capital. Em outras palavras a defesa de uma sociedade que é fundamentada no abuso da propriedade privada em detrimento do público. Por isso sempre o discurso da redução dos gastos públicos de modo a ampliar o lucro do privado. No dia a dia, ser de direita é ser a favor da manutenção da propriedade privada dos grandes proprietários. Mas isso leva a uma pergunta: Ser de esquerda não seria ser a favor da propriedade privada para os que não a possuem? Mas há um problema na definição feita desse modo. Vejam bem... Se a ideia for levada ao pé da letra por tolos ou por cínicos, fica-se com uma ideia de que todos devem ter tudo. Só que não é possível ter tudo, mesmo quem tem muito. Então falemos da esquerda no dia a dia... A esquerda de verdade (diferente de populistas que fazem-se de esquerda), mesmo na confusão de esquerdas, a esquerda de fato se adequa a ideia de defesa de um distributivismo e critica da desigualdade social. A esquerda se confunde nas formulas e projetos para se atingir esse tal distributivismo. Diferentes formulas são propostas. Então a definição de esquerda e direita fica: Direita: Os defensores da propriedade privada dos detentores do capital. Esquerda: Os críticos do abuso ao direito a propriedade privada. Eis esquerda e direita no contemporâneo.
(Tem um exemplo de abuso do direito - não necessariamente da propriedade - que eu ia dar no meio do texto e esqueci. Então dou no final do texto. No caso... Entendemos, ou boa parte de nós entende que as pessoas tem a necessidade de ter relações amorosas e afetivas. Amar e ser amado; Eis um direito. Mas quando, por exemplo, um rapaz que deseje ser amado, resolva beijar uma moça que ele esteja interessado, contra a vontade dela, e a exigir que ela ame ele; aí, obviamente, temos um abuso de direito. Sempre que uma pessoa, ou um conjunto de pessoas buscar satisfazer seus direitos, de forma imperiosa sobre o direito de outro ou de outros, mantendo um desequilíbrio de direitos, ou criando um desequilíbrio de direitos, há um claro abuso do direito. E tomemos cuidado para não confundir direito com leis constitucionais. A ideia do que seja ou não seja direito, são opiniões sobe o fluxo da mobilidade história.
Nenhum comentário:
Postar um comentário