Páginas

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A história do amor pela arte

  As medidas da arte não são o que é mais plausível ou menos plausível, mais lógico ou mais emotivo, mais consciente ou mais insano. Subjetividade, Objetividade, palavras, palavras, palavras... Quem foi que disse que o racionalismo está desprovido de sentimentos? Um idiota. Quem foi que disse que a arte é a expressão dos sentimentos? Outro idiota. A ARTE é uma busca mirabolante para o que ultrapassa tudo que há. E nisso ela se serve de tudo que cabe no papel, na tela, nos acordes musicais, na cena; de que há e que cabe, e que o artista considera necessário, mesmo sem ele saber porque considera.
  Numa atitude racionalista, ou insana, ou as duas coisas, a arte se faz pelas mãos de seu autor. Ela não resulta de uma postura sobre o que ela seja. Ela é resultado da imaginação, algum tipo de simetria, do prazer, da dor e do egoísmo do autor que ultrapassa a condição existencial estabelecida.
   Se não fôssemos mortais, o que seria da arte? Nada. É porque morremos que fazemos arte. Fazemos arte porque tentamos ser eternos (pelo menos sentir um fiapo do véu da eternidade por instante, e imaginando que sendo tocado por ela, talvez também possamos ser um pouco dela). Não digo eterno para os homens, pois continua não sendo uma eternidade. Eternos para si próprio. Eterno para satisfação de seu egoísmo criador. E como ingênuos levados pela ilusão de que alguém, uma força maior estas a nos observar e nos brindará com o eterno.
  Mas para que a eternidade? Para não precisar fazer mais arte? Não. Assim não. É melhor morrer. É melhor fazer arte do que viver.
  
  Eu escolho nascer! Eis me aqui! Os deuses sabiam minha vontade antes mesmo de eu ter tido ela. Eu escolho morrer. Eis me morrendo! É cruel. Mas é uma narrativa épica - cheia de reveses, peripécias, quedas na tristeza e pessimismos, mas também as paixões, as alegrias - os ventos que passam por sobre as flores e depois vem ao encontro do meus rosto - Eis me frágil como uma fagulha de papel; mortal e efêmero como um vaga-lume ou como uma centopeia; perecível... Eis me aqui. Os melhores soldados estão mortos. Os deuses estão mortos. E eis me, eu, frágil, mortal, aqui. Vivo.
  Não digo vivo com exclamação porque não acho a vida lá essas coisas. Mas fazer arte é algo magistral. Ser um artista é algo magistral. Quem não é artista, é apenas um dorme, acorda, trabalha, come, caga, faz sexo, dorme de novo, etc... E assim até serem destruídos pela morte. Quem é artista - idiota ou sábio - vive outrora, agora e o fugidio barco da imaginação. Foge com suas musas, e guloseimas, e são enormemente tolos. Tolos como crianças em carrosséis girando sem ir a parte alguma - mas ao mesmo tempo longe de tudo.
  O artista é um tolo que vive a mais bucólica, aterradora, maciça, macia, vertiginosa, trágica, bem aventurada historia do amor que existe. A história do amor pela arte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário