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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A diferença entre a diferença e a desigualdade social

  Diferença pressupõe a comparação entre duas coisas ou mais e a percepção de características que são específicas de cada coisa, ou de cada algo que está sendo comparado. Igualdade pressupõe a comparação entre duas coisas ou mais e a percepção de características que são comum entre essas coisas, ou entre o que está sendo comparado. Uma bola e um caixote, por exemplo, possuem a diferença de espaço que ocupam em determinado lugar que estejam, de perspectiva espacial que notamos ao observar cada objeto e de tipo de movimento que exercem quando são colocados em movimento por uma mesma força (além da diferença de geralmente também  não serem compostos de um mesmo material). E obviamente existe também as diferenças entre bolas e bolas, caixas e caixas, etc. Mas assim como há as diferenças, há as igualdades. No caso de uma bola de couro e um caixa de madeira; ambos possuem a igualdade de serem matérias palpáveis, a igualdade de serem perceptíveis por alguns de nossos órgãos sensoriais, e a igualdade de serem matéria inerte ou natureza morta segundo a concepção estética.
  Indo ao que interessa nesta analise - que não são necessariamente bolas e caixotes, mas sim os humanos e suas relações econômicas e política. - Umas pessoas, por ignorância não entendem a crítica a desigualdade social. Outras, por cinismo fingem que não entendem a crítica a desigualdade social, procurando apresentar ela como absurda, apoiadas no princípio de que as pessoas são diferentes umas das outras (como de fato são), para com isso dizer que a desigualdade tem que ser aceita. Só que para se entender a crítica a desigualdade social, é preciso entender o conjunto de ideias fundamentais ao qual ela está correlacionada, de modo que uma concepção não existem sem a outra. Essas ideias ou concepções são: 1) Crítica a desigualdade social. 2) Democracia 3) Necessidades básicas dos indivíduos.
  Comecemos pelas necessidades básicas dos indivíduos. Elas são: Alimentação, moradia, saúde, acesso amplo ao conhecimento, segurança, lazer, liberdade de expressão e de mobilidade, perspectiva de vida. Podem dizer que há alguma ou algumas outras necessidades básicas dos indivíduos - fora essas que acabo de cita-las - ou discordarem de alguma que citei. Mas independente disso, o fato é que os indivíduos possuem necessidades básicas. Outras necessidades (reais ou ilusórias) - fora as necessidades básicas - são na verdade meios e tentativas de se atingir as necessidades básicas. As necessidades básicas dos indivíduos chamam-se necessidades básicas dos indivíduos porque são comuns aos indivíduos. Sendo comuns a nós, elas são a nossa igualdade. Todos nós precisamos, por exemplo, de alimento, pois sem eles morremos de fome. Todos precisamos de segurança para expressarmos nossa opinião e defendermos nossas ideias. Assim como também precisamos de segurança e proteção dos nossos pais, no momento em que nascemos até desenvolvermos nossa capacidade intelectual e discernimento da realidade (afinal, um bebê não tendo alguém que cuide dele, vai morrer de fome, ou ser devorado por algum animal, ou ser levado pela enchente, etc). E para melhor podermos desenvolver a nossa capacidade intelectual, precisamos ter acesso amplo ao conhecimento. Resumindo: toda necessidade básica possui sua razão de ser bem fundamentada, de modo que a discussão política relativo a elas, é menos sobre o conteúdo, e mais sobre as formas que que ela se apresentam e as formas ou tentativas de se atingir elas.
  Embora nossa tradição iluminista tenda a posicionar-se a favor da democracia, existem posicionamentos antidemocráticos que partem do principio que os indivíduos sendo diferentes, a desigualdade é algo "natural", ou, a democracia se trataria de uma aberração política social, pois em tese significaria a emancipação política da maioria: "medíocre", "desprezível", "intelectualmente inferior". Então se tratando de um governo deplorável por conta de sua mediocridade. Evidentemente esse é o típico raciocínio dos chupadores de pênis das elites sociais, ou pensamento não manifesto da própria elite. Quem não faz parte da elite e pensa desse modo, se trata de um idiota maior, ou simplesmente de alguém que gostaria de fazer parte da elite.
  Na realidade, o que os sistemas antidemocráticos criam, não são sociedades onde os governantes são os sujeitos com maior capacidade intelectual. São sociedades onde quem governa é uma elite de homens com o controle das forças de coerção. Sociedades mais desenvolvidas politicamente, com uma maior circulação de conhecimento, de ideias; com uma agricultura mais desenvolvida, etc; foram dominadas por outras menos desenvolvidas nesses quesitos citados; mas com uma maquina de guerra mais desenvolvida. A própria mulher sofreu em boa parte da história o império do sexo com mais músculos, ou mais força bruta, se é que podem me entender. É na medida que a sociedade se democratiza, que o gigante imbecil começa a perder espaço para indivíduos com uma capacidade intelectual mais desenvolvida. Então a igualdade defendida através da democracia, é a melhor defesa possível das diferenças, pois na defesa da liberdade de expressão, todo indivíduo, independente das suas diferenças, podem manifestar uns aos outros sua percepção sobre as coisas. A defesa do poder estabelecido das elites é a falsa defesa das diferenças, pois se o poder é estabelecido no interesse de poucos, a diferença permitida é apenas a diferença desses poucos. Elas são colocadas em primeiro plano, enquanto a dos outros é dado a margem mínima - e caso vá contra o interesse dos gigantes imbecis (que hoje são ao mesmo tempo o mercado capitalista e o Estado) as diferenças são reprimidas e marginalizadas.
  Mas para que afinal os indivíduos precisam de diferenças, ou de suas diferenças? Exatamente para buscar atingir em particular aquilo que é comum a todos. Buscar atingir suas necessidades básicas. As diferenças e as igualdades nãos estão dissociadas umas das outras. Assim como também,  uma não é maior ou menor que a outra. A relação entre ambas é dialética. E a desigualdade social (fundamentalmente a desigualdade política e econômica no sentido de desequilíbrio) ocorre quando uns indivíduos, buscando exatamente satisfazer suas necessidades básicas, rompem com determinados limites, invadindo o espaço do outro, e negando ao outro que ele possa satisfazer plenamente suas necessidades básicas. Exemplo: a especulação imobiliária no sentido de elevar exorbitantemente o valor dos imóveis nas cidades, para o lucro de poucos reduz em muito a qualidade de vida de muitos. A desigualdade social é fundamentalmente: A negação das necessidades básicas e da individualidade de muitos para satisfazer um interesse mesquinho e déspota de poucos. 

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