As ideologias são mitificações que possuem a necessidade de serem desconstruídas porque elas induzem as pessoas a erros devido ao fato delas serem baseadas em premissas que buscam se afirmar sem uma base uma crítica.
Um dos problemas que tive de lidar logo de cara quando entrei em contato com intelectuais de esquerda, e artistas, foi a ideologia antiindividualista, ou o idealismo coletivista. Eu não sabia bem o que dizer, pois ficava dividido entre querer fazer uma defesa do individualismo e simpatizar com as idéias de ação coletiva, da defesa dos interesses sociais, etc.
Agora que já tenho uma opinião formada sobre a relação indivíduo/sociedade, posso falar com tranquilidade dessa dicotomia.
A ideologia individualista, no modo de produção capitalista, busca se afirmar na idéia de que o indivíduo pode se desenvolver e ascender socialmente através do acumulo de conhecimento, ou do acumulo de algum conhecimento específico, tornando-se especialista em alguma atividade econômica - e de acordo com sua capacidade e dedicação - ganhando dinheiro com isso. Assim a felicidade é encontrada na ação do indivíduo na produção ou auxilio de produção de algo que podendo ser comercializado, atinge o interesse, necessidade e utilidade de outros indivíduos - o que aliás, é uma falácia.
O indivíduo passa tanto tempo ocupado buscando se especializar em algo para ser alguém útil no modo de produção do capital, e depois tanto tempo produzindo a reprodução do capital, que dentro desse esquema, o que há é uma negação do indivíduo. Dentro da lógica do capital, no máximo ele é um programa de computador um pouco mais avançado do que um simples apertador de parafusos. Mas um programa é um programa.
A patética ideologia antiindividualista, que pateticamente quer se assumir contra o modo de reprodução do capital, parte da premissa de que o individualismo estabelecido pela sociedade do consumo, bloqueia a ação coletiva dos trabalhadores no sentido de uma emancipação política da classe proletária. Talvez essa crítica estivesse correta se fosse a ideologia individualista, ao invés de apenas ao individualismo. Mas como a crítica costuma ser ao individualismo, e não a ideologia individualista, só me resta fazer a crítica desse discurso simplório.
O objetivo de um trabalhador comum é ascender a classe a média. Esse objetivo subliminado - sonho - é o de tornar-se rico e ascender a elite social. Mas como muitos reconhecem que isso é para poucos, se contentam com a classe média, liquidificadores, chuveiro elétrico, tv de plasma, carro na garagem, viajar de férias nas férias, etc. É claro que esse é um objetivo pessoal do trabalhador para ele satisfazer a si e a seus familiares (esposa, marido, filhos, cachorro, gato, etc. E alguém que possa achar que estou sendo humorístico no caso do cachorro, gato; errou. Tem gente que gasta um salário mínimo com cachorro, meus caros). O trabalhador, ele vai pensar ou agir coletivamente, no momento em que ele percebe que sozinho não terá um melhor salário e precisa se rebelar junto com outros trabalhadores. Mas isso não é que ele passou a raciocinar coletivamente. Ele continua raciocinando individualmente e age coletivamente para satisfazer necessidades individuais.
Voltando alguns séculos na história...
O burguês na sociedade mercantilista, ou no principio e meados do mercantilismo, não buscava verdadeiramente uma ascensão social de sua classe. O que ele buscava é a ascensão pessoal, buscando meios de ascender socialmente ao nível da classe então dominante na época (a aristocracia, que mesmo em decadência, ainda era a classe dominante), através da compra de títulos nobiliárquicos e do casamento com integrantes da alta nobreza.
As pessoas não buscam uma ascensão social pessoal porque elas são mais individualistas, ou menos individualistas. Mas porque pensar numa melhoria das condições sociais no âmbito coletivo, é, ou cair num tipo de ideal socialista utópico que é utópico exatamente por ser idealista e não objetivado; ou precisa ter uma ampla noção das reais condições presentes na sociedade, suas contradições, para aí assim saber propor uma ação coletiva politicamente e economicamente satisfatória. A maioria das pessoas, ou o senso comum, não é ingênua a ponto de cair no ideal socialista utópico. Mas também não é informatizada a ponto de ter uma ampla noção das reais condições políticas e econômicas presentes na sociedade. Então a ação pessoal não tem haver com ideologia individualista. Mas com o fato de que de momento as pessoas não conseguem visualizar outro tipo de ação capaz de atingir seus interesses pessoais. A partir do momento que elas percebem que o melhor modo de agir para satisfazer seus interesses pessoais, é o modo coletivo; elas agem coletivamente, sem deixar de serem indivíduos, pois os interesses continuam sendo particulares de cada pessoa dentro do coletivo, embora haja uma similaridade. O que tanto a ideologia antiindividualista busca fazer, quanto a ideologia individualista busca fazer, é uma negação do indivíduo. Por isso mesmo, essas ideologias acabam sendo utilizadas por grupos que buscam dominar as pessoas e tornar-se um poder estabelecido.
Para terminar, eu não posso deixar de dizer, para essa esquerda tosca que não sabe a diferença entre ideologia individualista e individualismo, que:
A ideologia individualista não é a única ideologia utilizada pela sociedade do capital. A ideologia coletivista também é utilizada pela sociedade do capital. "Vamos todos cantar o hino nacional! Morrer pela pátria amada! Vamos rezar o pai nosso, pagar o dizimo e comprar o novo cd gospel. Vamos comprar aquele tenis da moda que está na moda. Vamos tratar com preconceito e com maldade aquele rapaz estranho que fica lendo livro ao invés de ler o facebook com a gente; etc"
A verdade é que a ideologia coletivista é muito mais cruel com as minorias e funciona muito melhor no modo de reprodução do capital, do que a ideologia individualista.
Mas a questão é que, se tratando de política, as ideologias em geral são um problema, pois elas criam uma imagem mitificada das coisas, escondendo suas verdadeiras naturezas e reduzindo em muito as possibilidades criticas e criativas das pessoas, de modo a buscar transformar elas em zumbis.
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