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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Uma analise mais objetiva do capital

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  A critica básica que é feita ao modelo econômico capitalista, é que nele o setor produtivo existe para produzir lucro, que por sua vez existe para fazer a reprodução do capital. O que é uma negativação da economia, pois numa economia positiva, a produção deve se voltar para a melhoria das condições sociais, e não para a mera reprodução do capital.
  Essa critica esta correta, no entanto ela precisa ser mais objetiva, analisando alguns pontos do capitalismo contemporâneo.
  Ao meu ver, o valor que é produzido, ou nem todo valor que é produzido acima dos custos de produção, é uma negativação, pois parte desse valor é utilizado no desenvolvimento técnico, melhoramentos na produção de bens de consumo; o que inegavelmente é uma necessidade social. Graças ao desenvolvimento de novas técnicas, do conhecimento, do maior acesso ao conhecimento tal como não houve em períodos anteriores ao capitalismo, que muitos de nós deixamos, por exemplo, de morrer de tuberculose. Outro exemplo é o fato de que hoje nós podemos fazer sexo sem preocupar tanto com as DSTs, ou com a gravides, graças a camisinha e as técnicas contraceptivas, etc. E como alimentar a enorme população do mundo atual utilizando métodos arcaicos de produção de alimentos? Seria improvável sem o desenvolvimento técnico na produção de alimentos.
  Outro ponto a ser considerado é o de que nem todo produtor de bens de consumo produz lucro, ou um lucro para si. Exemplifico isso partindo de um ponto básico utilizado para fazer a crítica do capitalismo:
  Na produção de bens de consumo, para a reprodução do capital, o produtor é levado a produzir o máximo possível pelo menor custo possível. Só que isso não é bem uma regra, pois produzir muito não quer dizer necessariamente obter maior margem de lucratividade. Na verdade se tem maior lucro quando se produz menos vendendo pelo maior preço possível (sendo que a lucratividade está na margem de renda acumulada a partir em quantidade de valor na margem de venda e não na de produção). É isso que cria a exclusão social característica do capitalismo; pois o que o é produzido não é produzido para a sociedade em sua totalidade, mas sim para a sociedade que pode pagar e paga um preço alto pelo que ela mesmo produz. Seguindo o raciocínio... O produtor, ou proprietário dos bens de produção, procura vender sua mercadoria pelo maior preço possível (uma valor acima do valor real). Mas ele não pode por o preço que bem entende na mercadoria. Ele precisa optar pelo maior preço possível que ele conseguir vender a mercadoria e obter o maior valor possível da totalidade de sua produção. Essa opção é o valor de mercado.
  Muitos produtores são levados a produzir praticamente na mesma margem de custos (sem o tal do "grande" lucro capitalista) porque eles enfrentam concorrências acirradas por espaço no mercado, e também por uma limitação no poder de consumo das pessoas, devido ao endividamento delas e a salários baixos. Eu, por exemplo, como produtor de pimenteiras em vasos, eu procuraria vender o vaso com a pimenteira a um preço médio de 30 reais. É um preço que eu considero caro para o poder de compra da nossa população, mas como não considero as pimenteiras um bem de consumo indispensável, e como quero ter recursos para investir no melhoramento da minha produção, e também na minha qualidade de vida, pois como quase todo mundo eu sou um trabalhador que trabalha de dia para comer de noite. Mas não vendo a esse valor de trinta reais porque está acima do preço de mercado, e havendo quem venda por menos, eu sou levado a também vender por menos. Se há as grandes corporações com seus grandes lucros, graças aos monopólios de mercado que elas fazem; também há grande quantidade de microempresas, e pequenos produtores rurais, que empregam grandes populações no mundo, e que vivem em crises por conta do custo alto de se produzir, e por causa da margem baixa de lucratividade.
  O custo alto na produção de muitos bens de necessidade indispensável, se deve ao custo auto da mão de obra tal como os neoliberais defendem? Lógico que não. Os neoliberais representam as elites que lucram alto com os custos na produção - por conseguinte - não interessa a eles falar quais são os verdadeiros motivos do sucateamento da produção de bens de consumo. O verdadeiro motivo é o grande lucro das corporações produtoras de bens de produção, e principalmente, o grande lucro do setor financeiro, que desempenha uma função de parasita social, devorando as economias do mundo, na base da agiotagem internacional, ou na transformação do dinheiro em principal mercadoria do capitalismo.

  2 -
  As vezes, em suas analises, Cassios, você me passa a impressão de que um dia vamos dormir no capitalismo, e em outro acordaremos fora do capitalismo. Não que eu ache que você realmente tenha dito isso, ou pense assim. Mas as vezes fico com essa impressão; por isso vou fazer uma breve crítica desse ponto de vista.
  Em nenhum modelo econômico na história, houve a passagem do modelo econômico para outro modelo, sem um processo lento de transição. Não penso que vai ser diferente com o capitalismo. Ver em deterioração, ou em deteriorações que há do capitalismo, elementos de mudança e de transição para um outro modelo, é subestimar as possibilidades de reestruturação que o capitalismo possui e que nós dois já reconhecemos.
  Na transição do mercantilismo para o capitalismo, ou em pleno mercantilismo, por exemplo, além da deterioração que começou a haver da economia mercantil, do império espanhol, etc; também havia em pleno mercantilismo já presentes elementos da nova economia nascente. Ou acaso você vai me dizer que numa bela tarde de sol os capitalistas chegaram e barco, pegaram o boné da cabeça dos mercantilistas, e o capitalismo começou?
  Esses elementos de uma possível transição do capitalismo para talvez o socialismo, já existem presentes em nossa sociedade a muito tempo, na forma das lutas sindicais; na ação dos partidos de esquerda; e no desenvolvimento e manifestação do terceiro setor, que apesar da alienação; na minha opinião, tende a ser o setor revolucionário.
  A transição acontece a partir de um conflito de classes com interesses divergentes, e da ação humana, que não é determinista, e sim histórica [é importante assinalar isso, porque em história se falo das coisas que aconteceram, que estão acontecendo, e que podem acontecer, sendo que a história não é uma rua de mão única.]
  Não confundam ação com vontade, pois muitas vezes agimos querendo uma coisa e obtemos outra.
  Também não confundam ação humana com exercício de moralidade; pois ação humana é uma correlação dialética de atividade política, econômica e cultural (uma coisa não existe sem a outra). A moralidade, ou como está na moda hoje em dia dizer, o exercício de cidadania é apenas uma das muitas coisas que coloca os humanos em atividade social.
  Eu não acho que você comete esses erros de avaliação, Cassios. Mas como estou apresentando os meus pontos de vista, e como esse texto é um préesboço para um outro texto que surgiria de uma reavaliação a partir do confronto de idéias, então inevitavelmente eu tenho que apresentar essa parte didática junto com a analise.

  3 -
  O que muita gente não entende e precisa começar a entender, é que o grande cobrador de impostos que existe na atualidade não é o Estado, os os Estados nacionais. É sistema financeiro capitalista. Esse sistema cobra impostos tanto através do encarecimento no custo de produção de bens de consumo, quanto através do próprio Estado que cobra impostos para pagar ao sistema credor.

  4 -
  Na história houveram tentativas de grandes rupturas com o sistema capitalista; começando pela comuna de paris, a revolução espanhola, a revolução soviética, cubana e a chinesa. Todas fracassaram. Embora eu não seja contra essas tentativas, e elas não tenham tido todas o mesmo caráter e forma; a avaliação que fiz e venho fazendo delas, é que, no caso da soviética por exemplo, não é feita uma ruptura de fato com os sistemas de repressão e alienação das pessoas. Mas sim uma substituição de uma elite com determinadas características, por outra elite com outras características (o que me lembra um encontro que um colega teve com um angolano, e animado esse meu colega, foi querendo saber sobre a revolução que houve na Angola depois da queda do imperialismo português. O angolano respondeu: "Nós trocamos só ladrões."). Havendo poder - ou poder concentrado nas mãos de poucos - haverá uma sociedade reprimida.
  Essas conclusões que podem deixar alguns analistas de esquerda pessimistas e deprimidos, na verdade me trouxeram uma luz.
  Acredito que é mais possível acontecer uma passagem do capitalismo para o socialismo através de não uma grande ruptura, mas sim uma série de pequenas rupturas, que se bem organizadas, vão provocando rachaduras nas bases do sistema capitalista, que por sua vez vai desabar de decrepito e ineficiente ao interesses sociais e econômicos da população.
  A ruptura com o capitalismo não pode ser apenas uma ruptura com o capitalismo. Ela tem que ser uma ruptura com um poder estabelecido, ou concentração de poder. O que torna o capital um problema é o fato de ele ser uma concentração de poder. Se a gente só critica o capital, sem saber fazer uma critica da concentração de poder, que é algo mais abrangente, o que apenas estaremos fazendo é dar voltas em círculos.
  As várias pequenas rupturas, além de representarem uma alternativa para a desconcentração do poder e possível desenvolvimento de uma consciência política e social, que a partir daí já não fica tão limitada a alienação ideológica de poucas vozes numa sociedade de poder concentrado, também pode ser a forma de transição do capitalismo para o socialismo.

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