Páginas

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Condição da liberdade

  1 -
  Pelo que entendi, Cassios, você desconsiderou as questões aqui levantadas como problemas de ordem moral. Disse que na verdade é a lógica do capital, com sua comum amoralidade, o grande fator responsável pelas principais crises sociais que vivemos. Eu entendo, Cassios, que há alguns equívocos em alguns pontos de sua parte. Embora o capital seja amoral, e seja o grande fator gerador das crises sociais na atualidade; o que nos leva a termos uma preocupação com essas questões, são tanto fatores de ordem material, quanto questões morais; princípios éticos que possuímos. O que leva a consideração de que estas questões também são questões de ordem moral.
  Quanto ao capital; por mais vírus social independente que ele pareça ser, ele não é um vírus independente de qualquer coisa. Ele é associado ao modelo econômico, que por sua vez, é uma construção histórica do homem.
  Uma vez ouvi você dizer que não existe na atualidade o homem político - que toma as decisões de sua vida em sociedade - Discordo de você. O fato de recebermos consequências negativas de nossos atos falhos, ocorre exatamente porque somos livre. Ser livre é sofrer as consequências das ações praticadas; quer sejam boas; quer sejam ruins. É exatamente o fato de sermos livres que nos torna seres políticos e construtores de nossa história. Você pode até afirmar que não foi você que criou armas de destruição em massa; que você não tem poder decisão no FMI; que você não pode tornar coletiva a propriedade da terra porque você não manda nela (mas se você fosse ter todo esse poder; você não seria um homem. Você seria Deus.). Ser livre não é ter superpoderes. Ser livre é você saber olhar para a sua vida, para o mundo, e ao invés de ficar dando desculpas para tudo; fazer algo por si e pelos outros. Mesmo que seja nada. Pois fazer nada também é uma escolha.

  2 -
  Se é dado a um indivíduo escolher entre sabores de sorvete: laranja, uva e chocolate. Então isso quer dizer ter dado escolha para o indivíduo? Não, pois ele pode gostar do sorvete de milho, ou caqui, ou outro. No entanto, ele não ter todas as opções possíveis, quer dizer que ele não é um ser livre? Também não, pois ter todas as opções não quer dizer necessariamente ser livre. Quer dizer estar numa condição ideal. Liberdade é você poder criticar as opções que lhe são dadas - e caso deseje - buscar algo diferente; mesmo que fracasse na conquista dessa busca. Pois tanto fracassar, quanto obter êxito em algumas de nossas ações, significa sofrer as consequências de nossos atos. Sofrer as consequências de nossos atos - quer sejam boas, quer sejam ruins - é a condição elementar da liberdade.
  A liberdade é uma coisa que existe a partir  da capacidade criativa e crítica que o ser humano possui. É graças a capacidade criativa e crítica humana, que nós somos um animal histórico - que produz a própria história e o produto dela - A cultura.
  Se vivêssemos num mundo ideal, o paraíso, o éden, possuiríamos todas as escolhas possíveis e, evidentemente, não haveria o que criticar e também nada a se criar (tudo já está pronto e perfeito). A razão de ser da liberdade, do senso critico, e da capacidade criativa, é a imperfeição do mundo e os problemas de nossas vidas. A dialética que há entre essas coisas é a lógica existencial.

  3 -
  É óbvio que a gente possui um monte Everest de problemas. Mas nunca em um período histórico, nós brasileiros e gente de algumas outras nações, possuiu tantas condições de poder transformar sua realidade em algo mais interessante. O que vocês que acusam o capital, ou alguma outra mega estrutura, de ser o único agente histórico contemporâneo, estão fazendo é: desperdiçar o melhor momento de mudanças políticas possível. Vocês estão condenando as próximas gerações, e até os jovens da atualidade, a encarar um futuro tenebroso. É lógico que vocês não estão fazendo isso de livre vontade. Mas estão fazendo isso, uns por comodismo, preferindo se acomodar a um salário mensal do que a entrar em choque com a dura realidade (Não deixa de ser um posicionamento elitista, pois ser de elite pode tanto ser uma defesa da realidade imposta, quanto uma critica que procura mostra-se critica, mas que afirma que não é possível ir além da critica, porque segundo eles, a realidade não permite. Ou a "MATRIX". Na verdade isso é uma clara amostra de incapacidade de saber visualizar as condições transformadoras presentes em nossa época.
  MATRIX, é uma peseudorealiadade na qual pessoas vegetam com suas mentes narcotizadas. Se fosse realmente esse o problema, ele seria resolvido desligando a grande máquina produtora de de ilusões. Mas o problema é muito mais complexo. Nós não vivemos numa MATRIX. Nós vivemos numa realidade complexa cheia de problemas.

  4 -
  Como pessoa com um posicionamento de centro esquerda, entendo as reformas sociais como o melhor meio de se chegar ao socialismo, ou a um socialismo de mercado, pois diferente da esquerda dogmática, penso que o mercado não é esse vilão que os dogmáticos acusam ele de ser. Aliás, o mercado, ou as relações de troca, num sentido mais amplo, são exatamente o que torna possível a existência das sociedades humanas. É da criação e troca de bens de interesse comum, que é produzido a cultura coletiva humana, e por conseguinte, a história humana. Portanto, mercado, ou relações de troca, são um elemento orgânico e imprescindível em nossas vidas. O problema não é o mercado, e sim o tipo de mercado.
  Outro ponto a ser levantado, é que, embora as formas que os problemas sociais podem assumir, e principais fatores, se modificam no transcorrer da história (menos um fator: a acumulação de poder que hoje se assume através da acumulação de capital), as necessidades básicas do indivíduo permanecem as mesmas. Elas são: moradia, alimentação, saúde, acesso amplo a informação e conhecimento, lazer, segurança, liberdade de expressão e de mobilidade, e também uma coisa que muitos esquecem de por nessa lista: perspectiva de vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário