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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Os grupos e os indivíduos, ou O Eu e o Nós

   

 Resolvi entregar uns filmes a uma colega (Audrei) que peguei emprestado. Também decidi por entregar as copias dos desenhos de uma exposição, minha mesmo, a Ligia. Então pensei: Já que tenho que fazer duas coisas, por que não faze-las no mesmo dia e ganhar tempo? Combinei no domingo (dia 6) o encontro duplo. Domingo que aliás é o dia que estou livre e é o dia que a maioria das pessoas estão livres.
  Pensando nessas coisas, perguntei-me: Por que não reunir os outros colegas e fazer uma reunião filosófica para discutir: filosofia, política, arte; e também falar um pouco de bobagem sem sentido para rir um pouco das coisas sérias? Então – depois de resolver fazer o encontro – propus como tema do encontro fazer um dialogo com o seguinte tema: O porquê de abandonarmos nossos grupos para nos dedicarmos apenas as nossas questões individuais. Como achei esse tema meio restrito; eu modifiquei ele para: Os grupos e os indivíduos, ou, O Eu e o Nós.
   Um dialogo com a idéia de buscar entender essa relação entre grupo e  o individuo (o Eu e o Nós). Nós que alias é um conjunto de Eus (os indivíduos). Mas não um conjunto reunido aleatoriamente. Um conjunto reunido por pontos de convergência. Coisas do nosso interesse comum.
  Aí, voltando a questão inicial (o porquê de abandonarmos nossos grupos para nos dedicarmos apenas as nossas questões individuais). Fazendo uma analise fria sobre as causas do abandono do grupo; eu identifiquei dois fatores que eu coloco como os principais. O primeiro é de ordem material (mais ligado as necessidades matérias dos indivíduos). E o segundo é psicológico (embora uma coisa não esteja separada da outra; em cada caso há uma influencia maior de um fator sobre outro).
  Começo primeiro falando do fator material:
  Geralmente as pessoas se organizam em grupos com a intenção de reivindicar ou criar alternativas que melhorem as condições de vida das pessoas que pertencem ao grupo. As reivindicações clássicas, que também considero ser as principais, são as reivindicações relativas as coisas básicas. Comida, moradia, saúde, tempo - Que no caso queremos ter que precisar trabalhar menos, para poder fazer outras coisas que queremos fazer (Lazer, arte, esportes, sexo. Cada um com seus interesses, gostos, vontades particulares). No momento em que as pessoas conseguem obter essas reivindicações básicas, através de melhores salários, redução da jornada de trabalho (que ainda é grande, mas que se comparado com outros períodos históricos em que ela já foi de 16 horas e até 18 horas nos primórdios da revolução industrial; hoje a carga de horas de trabalho de muitas pessoas é menor). Então, a partir do momento em que uma parcela da população começa a obter mais ou menos essas reivindicações básicas (seja como funcionários públicos, seja trabalhando para a iniciativa privada), o interesse dos indivíduos pelos grupos começa a diminuir. Tipo: O que muitos pensam mas não dizem é: Se eu posso obter individualmente aquilo que antes eu requeria através dos grupos, então foda-se os grupos.
  Só que a gente sabe, ou pelo menos alguns de nós sabemos, que isso das necessidades do individuo é algo que é em parte uma coisa meio nebulosa. É relativo de pessoa para pessoa, como também é de momento para momento. 
  Quando eu notei que muitas dessas pessoas tornaram-se pessoas fúteis a ponto de se preocuparem mais com coisas como: trocar os moveis de suas casas uma vez por ano (que alias não um negocio barato); de forma que quando eu chamo elas para bater um papo num ponto de cultura sobre filosofia, política, artes; algumas dessas pessoas fazem aquela cara de desdém, e dizem: “Ai! Eu acho isso u ó! Eu não estou para isso não.” Então começo a perceber que as pessoas, uma vez que tem suas necessidades primarias satisfeitas; elas ainda continuam querendo ter mais coisas e ter mais coisas. E tanto a ponto de querer substituir uma pessoa por coisas. Exemplo de raciocínios destes: “Eu não quero ter sua companhia! Eu quero ter minha piscina, as minhas esculturas esculpidas em uma grande tora de carvalho pelo escultor famoso premiado no festival francês e tal. Quero ter os meus cavalos...” Obviamente para ter tudo isso é preciso trabalhar mais e ganhar mais dinheiro de forma que as pessoas continuam sem tempo.
  Inevitavelmente isso me faz concluir que as pessoas são vazias. Sendo vazias, elas querem preencher esse vazio, esse buraco abissal, colocando coisas dentro dele. Tudo que é tranqueira imaginável elas jogam no buraco de si próprias. Só que, essas coisas não são capazes de preencher o buraco. Então esse circulo vicioso não tem fim.
  Aí o primeiro fator do abandono dos grupos pelos indivíduos. No caso o material, fazendo uma relação com o fator existencial, pois ambas as coisas estão conectadas.
  Agora, indo para o segundo fator. O fator psicológico:
  Observando os grupos da atualidade que tenho contato, e observando os humanos, eu notei um fluxo recorrente e comum nesses grupos.
  Primeiramente o grupo nasce com um grande ideal, ou ideais que podem ser artísticos, políticos na defesa de minorias, ou na critica dos preconceitos e discriminações existentes na sociedade, e na busca de mudar a sociedade para algo melhor ou menos pior. Esse nascimento do grupo é eufórico. Tanto o heroísmo quanto as muitas expectativas positivas, são perceptíveis no discurso dos organizadores desses grupos; assim como também os indivíduos todos vem integrar esses grupos cheios de expectativas, esperanças. Nesse momento acontece o lançamento publico do grupo, ou de algum projeto do grupo, ou do espaço do grupo. Ocorre a festa de lançamento; e como todas as pessoas estão se conhecendo e festejando – todos são amigos; estão com os olhos brilhando apaixonados e querendo se amar intensamente. Só que, se sabe bem que a realidade não é um dia de êxtase, não são as revoltas de uma semana retratadas romanticamente por alguns.
  A realidade é o dia a dia. Des da hora que nos levantamos, até a hora em que finalmente conseguimos encostar de volta nossas cabeças no travesseiro (o gostoso travesseiro) e dormir. O dia a dia, com todos os seus obstáculos, problemas a ser solucionados ou a tentativa de soluciona-los, a busca por ganhar o pão de cada dia... Eis a realidade.
  Passado o momento de euforia do grupo; as pessoas que fazem parte dele, começam a perceber que o grupo não vai satisfazer as muitas expectativas que eles tinham sobre o próprio grupo. Um ser humano possui muitas necessidades e vontades. Tanto materiais, quanto existenciais; elas são muitas. Por mais bem organizado que esteja o grupo, ele é incapaz de satisfazer as muitas demandas que o individuo o possui; que cada um de nós possuímos.
  Ao notar (uma coisa que já deveria ter sido notada des do principio) a realidade de que o grupo não vai fazer muitas coisas que o individuo esperava do grupo; é nesse momento que o individuo passa a começar a sentir um ressentimento das pessoas. A pessoa passa a ter magoas das outras pessoas. Elas sentem-se ignoradas ou excluídas pelo próprio grupo. Essa magoa é começo do rancor.
  O rancor, geralmente, não é um sentimento que as pessoas tem por pessoas com quem elas não vão com a cara. O rancor é um sentimento que as pessoas tem por pessoas que elas amaram, ou talvez até ainda amem em segredo. Este sentimento, ele nasce do amor não correspondido. No caso, a pessoa não tem a atenção que ela gostaria de ter das pessoas do grupo (evidentemente, as pessoas não querem ter a atenção de pessoas que elas não gostam. É natural querermos ter a atenção daqueles que gostamos). Primeiro esse ser passional, que age movido pelas emoções (os humanos), sentem-se ressentidas. Depois vem o rancor, e também em alguns casos o ódio.
  Eu converso com muita gente. E tirando algumas exceções (tipo o benevolente Marco Maida [risos]), todo mundo fala mal de todo mundo. Muitas vezes falam mal pelo motivo do ressentimento que acabei de falar. Outras vezes fazendo uma critica, as vezes certa, as vezes equivocada (todos cometemos erros de avaliação). E falam mal, principalmente intelectuais e artistas, como uma forma de se sentir superior ao outro (a pessoa não é suficientemente segura das qualidades dela; e, para se sentir superior, melhor, ela precisa diminuir o outro. Isso é o que chamo de: vicio da maledicência). E também por humorismo. O humor acontece quando a gente percebe as coisas fora do lugar, ou em lugares inusitados, de uma forma poética que a gente acha graça. Eu sou um radical defensor do humor. Mas voltando ao tema...
  Alguns de vocês devem estar se perguntando, o que essa parte das pessoas falarem mal uma das outras tem haver com o tema do nosso debate? Eu respondo: Uma das causas dos ressentimentos entre as pessoas do grupo, é a descoberta de que um falou mal do outro. Sabendo eu que todo mundo fala mal de mundo, inclusive muitos de vocês fala mal de mim – já eu falo mal só dos homens. As mulheres eu chamo todas de lindas (risos)  – Os marido dizem olhando nos olhos de suas esposas que amam elas, e na mesa de bar com amigos falam mal de suas esposas (não que o amor seja falso, mas tanto para extravasar, quanto porque muita coisa a gente não fala para a pessoa por medo de magoa-la.)
   Mas fazendo a critica do falar mal para se sentir superior. Entendo que nós seriamos realmente superiores, se ao invés de usar a pretensa superioridade tendo que diminuir o outro, nós seriamos realmente superiores se não nos levássemos uns aos outros tão sério.  Porra! É legal a gente estar reunido, comendo biscoitos, trocando as nossas impressões sobre a vida, tanto falando de coisas importantes, quanto falando um pouco de merda. Porque é legal também falar umas merdas. Fora isso, a gente não pode esperar que as pessoas pensem como a gente e façam o que a gente quer.
  Se queremos que o outro faça algo com a gente (caso seja possível para o outro, pois há muitas coisas que gostaríamos de fazer e não fazemos por não haver tempo para tudo), o que devemos é buscar persuadir o outro. Convidar as pessoas, sempre anunciar algo que queremos divulgar, e não ficar ressentidos com elas caso elas não venham.
  O que estraga a relação de grupos é a gente substituir o ato da persuasão pela exigência. Ao invés de buscar convencer os indivíduos, a gente começa a exigir e se irritar com o não cumprimento de nossas exigências. Sem perceber, a gente torna-se autoritário com as pessoas. É isso o que ferra com os grupos.
  Então, para terminar essa minha analise, tem uma frase que a principio ela pode parecer meio sem sentido. No caso, a frase é:
  “O ser humano deve fazer o seu melhor e não criar expectativa em nada.”
  No entanto, isso de não criar expectativas é até meio ilógico, pois quando fazemos coisa da qual esperamos algo positivo, naturalmente a gente cria expectativas positivas sobre os resultados dessa nossa ação. Só que a idéia fundamental dessa frase, é que, uma vez fazemos as coisas que consideramos as melhores a serem feitas; mesmo as vezes se enganando – Uma vez que fazemos o nosso melhor, o que acontece a partir daí, já não nos pertence. Não é nossa culpa.
  Bem...
  Aqui termino a minha introdução a esse nosso dialogo. Ou melhor dizendo:
  A esse nosso POLIALOGO.
  Monologo é a fala de um de um só. Dialogo é a conversa de dois. Polialogo é a conversa de grupo. O momento em que os indivíduos falam e o grupo ouve os indivíduos.
  E então? Vamos começar a suruba?

                                                                                           Marco Marques (escritor e desenhista)
                       06/10/2013


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