Resolvi entregar uns filmes a uma
colega (Audrei) que peguei emprestado. Também decidi por entregar as copias dos
desenhos de uma exposição, minha mesmo, a Ligia. Então pensei: Já que tenho que
fazer duas coisas, por que não faze-las no mesmo dia e ganhar tempo? Combinei no
domingo (dia 6) o encontro duplo. Domingo que aliás é o dia que estou livre e é
o dia que a maioria das pessoas estão livres.
Pensando nessas
coisas, perguntei-me: Por que não reunir os outros colegas e fazer uma reunião
filosófica para discutir: filosofia, política, arte; e também falar um pouco de
bobagem sem sentido para rir um pouco das coisas sérias? Então – depois de
resolver fazer o encontro – propus como tema do encontro fazer um dialogo com o
seguinte tema: O porquê de abandonarmos nossos grupos para nos dedicarmos
apenas as nossas questões individuais. Como achei esse tema meio restrito;
eu modifiquei ele para: Os grupos e os indivíduos, ou, O Eu e o
Nós.
Um dialogo com a idéia de buscar
entender essa relação entre grupo e o individuo (o Eu e o Nós).
Nós que alias é um conjunto de Eus (os indivíduos). Mas não um conjunto reunido
aleatoriamente. Um conjunto reunido por pontos de convergência. Coisas do nosso
interesse comum.
Aí, voltando a questão
inicial (o porquê de abandonarmos nossos grupos para nos dedicarmos apenas as
nossas questões individuais). Fazendo uma analise fria sobre as causas do
abandono do grupo; eu identifiquei dois fatores que eu coloco como os
principais. O primeiro é de ordem material (mais ligado as necessidades matérias
dos indivíduos). E o segundo é psicológico (embora uma coisa não esteja separada
da outra; em cada caso há uma influencia maior de um fator sobre
outro).
Começo primeiro
falando do fator material:
Geralmente as pessoas
se organizam em grupos com a intenção de reivindicar ou criar alternativas que
melhorem as condições de vida das pessoas que pertencem ao grupo. As
reivindicações clássicas, que também considero ser as principais, são as
reivindicações relativas as coisas básicas. Comida, moradia, saúde, tempo - Que
no caso queremos ter que precisar trabalhar menos, para poder fazer outras
coisas que queremos fazer (Lazer, arte, esportes, sexo. Cada um com seus
interesses, gostos, vontades particulares). No momento em que as pessoas
conseguem obter essas reivindicações básicas, através de melhores salários,
redução da jornada de trabalho (que ainda é grande, mas que se comparado com
outros períodos históricos em que ela já foi de 16 horas e até 18 horas nos
primórdios da revolução industrial; hoje a carga de horas de trabalho de muitas
pessoas é menor). Então, a partir do momento em que uma parcela da população
começa a obter mais ou menos essas reivindicações básicas (seja como
funcionários públicos, seja trabalhando para a iniciativa privada), o interesse
dos indivíduos pelos grupos começa a diminuir. Tipo: O que muitos pensam mas não
dizem é: Se eu posso obter individualmente aquilo que antes eu requeria através
dos grupos, então foda-se os grupos.
Só que a gente sabe,
ou pelo menos alguns de nós sabemos, que isso das necessidades do individuo é
algo que é em parte uma coisa meio nebulosa. É relativo de pessoa para pessoa,
como também é de momento para momento.
Quando eu notei que
muitas dessas pessoas tornaram-se pessoas fúteis a ponto de se preocuparem mais
com coisas como: trocar os moveis de suas casas uma vez por ano (que alias não
um negocio barato); de forma que quando eu chamo elas para bater um papo num
ponto de cultura sobre filosofia, política, artes; algumas dessas pessoas fazem
aquela cara de desdém, e dizem: “Ai! Eu acho isso u ó! Eu não estou para isso
não.” Então começo a perceber que as pessoas, uma vez que tem suas necessidades
primarias satisfeitas; elas ainda continuam querendo ter mais coisas e ter mais
coisas. E tanto a ponto de querer substituir uma pessoa por coisas. Exemplo de
raciocínios destes: “Eu não quero ter sua companhia! Eu quero ter minha piscina,
as minhas esculturas esculpidas em uma grande tora de carvalho pelo escultor
famoso premiado no festival francês e tal. Quero ter os meus cavalos...”
Obviamente para ter tudo isso é preciso trabalhar mais e ganhar mais dinheiro de
forma que as pessoas continuam sem tempo.
Inevitavelmente isso
me faz concluir que as pessoas são vazias. Sendo vazias, elas querem preencher
esse vazio, esse buraco abissal, colocando coisas dentro dele. Tudo que é
tranqueira imaginável elas jogam no buraco de si próprias. Só que, essas coisas
não são capazes de preencher o buraco. Então esse circulo vicioso não tem
fim.
Aí o primeiro fator do
abandono dos grupos pelos indivíduos. No caso o material, fazendo uma relação
com o fator existencial, pois ambas as coisas estão conectadas.
Agora, indo para o
segundo fator. O fator psicológico:
Observando os grupos
da atualidade que tenho contato, e observando os humanos, eu notei um fluxo
recorrente e comum nesses grupos.
Primeiramente o grupo
nasce com um grande ideal, ou ideais que podem ser artísticos, políticos na
defesa de minorias, ou na critica dos preconceitos e discriminações existentes
na sociedade, e na busca de mudar a sociedade para algo melhor ou menos pior.
Esse nascimento do grupo é eufórico. Tanto o heroísmo quanto as muitas
expectativas positivas, são perceptíveis no discurso dos organizadores desses
grupos; assim como também os indivíduos todos vem integrar esses grupos cheios
de expectativas, esperanças. Nesse momento acontece o lançamento publico do
grupo, ou de algum projeto do grupo, ou do espaço do grupo. Ocorre a festa de
lançamento; e como todas as pessoas estão se conhecendo e festejando – todos são
amigos; estão com os olhos brilhando apaixonados e querendo se amar
intensamente. Só que, se sabe bem que a realidade não é um dia de êxtase, não
são as revoltas de uma semana retratadas romanticamente por alguns.
A realidade é o dia a
dia. Des da hora que nos levantamos, até a hora em que finalmente conseguimos
encostar de volta nossas cabeças no travesseiro (o gostoso travesseiro) e
dormir. O dia a dia, com todos os seus obstáculos, problemas a ser solucionados
ou a tentativa de soluciona-los, a busca por ganhar o pão de cada dia... Eis a
realidade.
Passado o momento de
euforia do grupo; as pessoas que fazem parte dele, começam a perceber que o
grupo não vai satisfazer as muitas expectativas que eles tinham sobre o próprio
grupo. Um ser humano possui muitas necessidades e vontades. Tanto materiais,
quanto existenciais; elas são muitas. Por mais bem organizado que esteja o
grupo, ele é incapaz de satisfazer as muitas demandas que o individuo o possui;
que cada um de nós possuímos.
Ao notar (uma coisa
que já deveria ter sido notada des do principio) a realidade de que o grupo não
vai fazer muitas coisas que o individuo esperava do grupo; é nesse momento que o
individuo passa a começar a sentir um ressentimento das pessoas. A pessoa passa
a ter magoas das outras pessoas. Elas sentem-se ignoradas ou excluídas pelo
próprio grupo. Essa magoa é começo do rancor.
O rancor, geralmente,
não é um sentimento que as pessoas tem por pessoas com quem elas não vão com a
cara. O rancor é um sentimento que as pessoas tem por pessoas que elas amaram,
ou talvez até ainda amem em segredo. Este sentimento, ele nasce do amor não
correspondido. No caso, a pessoa não tem a atenção que ela gostaria de ter das
pessoas do grupo (evidentemente, as pessoas não querem ter a atenção de pessoas
que elas não gostam. É natural querermos ter a atenção daqueles que gostamos).
Primeiro esse ser passional, que age movido pelas emoções (os humanos),
sentem-se ressentidas. Depois vem o rancor, e também em alguns casos o
ódio.
Eu converso com muita
gente. E tirando algumas exceções (tipo o benevolente Marco Maida [risos]), todo
mundo fala mal de todo mundo. Muitas vezes falam mal pelo motivo do
ressentimento que acabei de falar. Outras vezes fazendo uma critica, as vezes
certa, as vezes equivocada (todos cometemos erros de avaliação). E falam mal,
principalmente intelectuais e artistas, como uma forma de se sentir superior ao
outro (a pessoa não é suficientemente segura das qualidades dela; e, para se
sentir superior, melhor, ela precisa diminuir o outro. Isso é o que chamo de:
vicio da maledicência). E também por humorismo. O humor acontece quando a gente
percebe as coisas fora do lugar, ou em lugares inusitados, de uma forma poética
que a gente acha graça. Eu sou um radical defensor do humor. Mas voltando ao
tema...
Alguns de vocês devem
estar se perguntando, o que essa parte das pessoas falarem mal uma das outras
tem haver com o tema do nosso debate? Eu respondo: Uma das causas dos
ressentimentos entre as pessoas do grupo, é a descoberta de que um falou mal do
outro. Sabendo eu que todo mundo fala mal de mundo, inclusive muitos de vocês
fala mal de mim – já eu falo mal só dos homens. As mulheres eu chamo todas de
lindas (risos) – Os marido dizem olhando nos olhos de suas esposas
que amam elas, e na mesa de bar com amigos falam mal de suas esposas (não que o
amor seja falso, mas tanto para extravasar, quanto porque muita coisa a gente
não fala para a pessoa por medo de magoa-la.)
Mas fazendo a critica
do falar mal para se sentir superior. Entendo que nós seriamos realmente
superiores, se ao invés de usar a pretensa superioridade tendo que diminuir o
outro, nós seriamos realmente superiores se não nos levássemos uns aos outros
tão sério. Porra! É legal a gente estar reunido, comendo
biscoitos, trocando as nossas impressões sobre a vida, tanto falando de coisas
importantes, quanto falando um pouco de merda. Porque é legal também falar umas
merdas. Fora isso, a gente não pode esperar que as pessoas pensem como a gente e
façam o que a gente quer.
Se queremos que o
outro faça algo com a gente (caso seja possível para o outro, pois há muitas
coisas que gostaríamos de fazer e não fazemos por não haver tempo para tudo), o
que devemos é buscar persuadir o outro. Convidar as pessoas, sempre anunciar
algo que queremos divulgar, e não ficar ressentidos com elas caso elas não
venham.
O que estraga a
relação de grupos é a gente substituir o ato da persuasão pela exigência. Ao
invés de buscar convencer os indivíduos, a gente começa a exigir e se irritar
com o não cumprimento de nossas exigências. Sem perceber, a gente torna-se
autoritário com as pessoas. É isso o que ferra com os grupos.
Então, para terminar
essa minha analise, tem uma frase que a principio ela pode parecer meio sem
sentido. No caso, a frase é:
“O ser humano deve
fazer o seu melhor e não criar expectativa em nada.”
No entanto, isso de
não criar expectativas é até meio ilógico, pois quando fazemos coisa da qual
esperamos algo positivo, naturalmente a gente cria expectativas positivas sobre
os resultados dessa nossa ação. Só que a idéia fundamental dessa frase, é que,
uma vez fazemos as coisas que consideramos as melhores a serem feitas; mesmo as
vezes se enganando – Uma vez que fazemos o nosso melhor, o que acontece a partir
daí, já não nos pertence. Não é nossa culpa.
Bem...
Aqui termino a minha
introdução a esse nosso dialogo. Ou melhor dizendo:
A esse nosso
POLIALOGO.
Monologo é a fala de
um de um só. Dialogo é a conversa de dois. Polialogo é a conversa de grupo. O
momento em que os indivíduos falam e o grupo ouve os indivíduos.
E então? Vamos começar
a suruba?
Marco Marques (escritor e
desenhista)
06/10/2013
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