Elogio da palavra
Cadeira, amor, existencialismo -
Os três são palavras. Os três são idéias. Os três são representações do sensível.
A cadeira é algo banal, visível, que carregamos e sentamos em muitas delas durante nossas vidas. O amor é um sentimento, um estado de bem querer elevado que mal sabemos explica-lo, mas que sabemos existir, uma vez que o sentimos. Existencialismo é um conjunto de possibilidades sensíveis, que tem palavras e idéias para cada qual; esse conjunto, pela complexidade, não é notado facilmente. Ao usar tal termo diante daqueles que não notam o sentido dele, possivelmente, tu será acusado, por parte dos ouvintes, de estar usando um conceitualismo vazio. Lhe dirão: ''Você limita as coisas, a vida, a conceitos!" Heeh! Sou eu mesmo que limita, ou serás tu (acusador) que limita o que não percebe? São comuns individuos que enxergam cadeiras, tijolos, motocicletas, quando estas coisas estão diante de nossos olhos; na atualidade, também não é incomum humanos que amam confundindo amor com sexo e fazendo dele uma penitenciaria. Então me ponho a explicar o conceito existencialismo, dando substancialidade a ele (substancialidade que já possui, independente da falta vista dela) de maneira que o torne notavel como representação do sensível. Antes de começar, não posso deixar de dizer que o existencialismo, assim como o racionalismo, subjetivismo, pos-modernismo, etc, todos são tão representações do sensível quanto a cadeira e o amor (love).
O existencialismo, ou, a experiência existencialista é um estado em que notamos nossas consciencias existindo num corpo estranho, a estranheza da própria consciência, sendo também o corpo, ou não, mas notamos-nos com sujeitos, acreditando ou não num universo predicado, a gente se nota; podemos nos sentir imensamente tristes e sozinhos, como também nos sentirmos felizes e livres na criatividade e percepção de nossas consciências. Esse notar-se é o existencialismo.
Agora vão continuar chamando a palavra existencialismo, e outras palavras sensivelmente complexas, de conceituações filosoficas vazias? As vezes quando dizemos que uma coisa é vazia, podemos estar realmente diante de algo vazio. Outras vezes não. Outras vezes o vazio não é aquilo que dizemos ser vazio. O vazio somos nós.
Quando que, por exemplo, o hegelianismo é uma filosofia, que o Jazz é um estilo de música, que o dormir é um descanso do mundo comum para um despertar num particular nosso, o que estamos a dizer sobre essas coisas, e todas as outras coisas, é que elas, mesmo com as diferenças e variações que possuem dentro de si próprias e diante uma da outra, também possuem um conjunto de afinidades. A percepção dessas afinidades é a idéia.
Não raro observo que algumas pessoas, querendo fazer a crítica de algum ponto de vista, confundem o que costumam chamar de esteriótico com o que estou a chamar de idéia. Talvez, quem sabe, talvez esteriotico e idéia sejam a mesma coisa. Mas se são a mesma coisa, idéia é o esteriotico inteligente e esteriotico é a idéia burra (ah! não resisti a essa mania popular de tranformar a burra em adjetivo. Risos)
Capturando uma idéia sobre um fenomeno, por exemplo, dizer: o intelectual, não é dizer que não há diferenças entre os intelectuais; é dizer que há um conjunto de afinidades notadas pela sensibilidade num grupo de pessoas; diante desta percepção, nossa criatividade inventa uma palavra para expressar essas afinidades percebidas. No caso, a palavra intelectual.
A palavra, ou, as palavras possuem um duplo e inverso sentido. O sentido de fechar uma possibilidade numa definição; e o sentido de abrir uma ou mais possibilidades num ato criativo - a criação do codgo - e nisso ela é uma janela - para qual olhamos e vemos além dela. A palavra é utopia - o que faz de nós também utopia - pois o sensível manifesto existe (sendo transitório). Depois de inventar a palavra, a trazemos para mundo. Vamos falar do intelectual, da cadeira, do amor, de palavras complexas, dentro de um momento circunstâncial (num periodo existêncial). Ao entrar uma janela, estamos entrando numa idéia movente, rios que andam plácidos ou que correm impetuosos, cheios de proposições, o que entre outras palavras quer dizer que, dentro de cada janela há varias novas janelas. Quando resolvemos abri-las - no dize-las, escreve-las, ler, escutar - estamos sendo ousados, no dito, e quem não compreender vai taxar a palavra de esteriótico. Então não falemos mais. Mugiremos como as vacas. Falar é esteriotico (evidentemente, estou sendo irônico).
Falando em um periodo, das afinidades existentes em um grupo de possibilidade, ou em algo específico, é obvio que existem as exceções na idéia. Praticamente, toda coisa tem suas possibilidades excepcionais. Preucupados com isso, procuramos explicar as exceções de maneira a se desvencilhar das interpretações equivocadas. As exceções são outro grupo de afinidades - outras janelas dentro de outras janelas. Quando isso acaba? Nunca - A idéia sendo movente não é um esteriotico. Ela é dialética. Sabendo da limitação de não podermos dizer tudo num texto - nem que esse texto fosse quarenta livros - e sabendo do valor movente das idéias, escrevemos-as, dizemos elas, pois sentimos por elas uma necessidade existêncial, além disso, sentimos Amor.
Nos autores escrevemos acreditando que as pessoas, ou algumas entre elas, vão entender, concordando ou não com nossas idéias, vão abrir as janelas que construimos e enxergar atravez delas. Somos otimistas janeleiros (pelo menos eu). Acredito que pelo menos um raio de sol vai entrar pela janela e não vai chamar a palavra de coisa fechada e reducionista. A palavra é muito mais que isso.
Então, meus caros, acaso estaremos proibidos de dizer uma idéia, manifesta por codgos de percepção do sensível, porque inumeras pessoas não compreendem a percepção do sensivel no codgo? Elas julgam o codgo pelo codgo. Chamam o vinho de garrafa, e por creer nisso, dizem que o vinho não presta. Fazer a crítica inteligente do esterioticos, é fazer a crítica das pseudoidéias. Só que no equivoco de confundir esteriotico com codgo, passou-se a fazer uma tola crítica deles sem exergar as janelas que eles são; vendo apenas paredes densas e frias.
Ah! Como eu sou apaixonado pela frase clichê que diz: os olhos são a janela da alma. O codgo é olho do escritor. Muitos estão perdendo a habilidade de olhar nos olhos do escritor. Quando somente acusam a palavra de reducionista, estão a perder a sabedoria dela. Os autores mais elogiados por eles são os que negam a palavra. Pateticamente usam a palavra para acusar a palavra de ser uma definição (o que consideram algo terrivel! Pois como diz Oscar Wilde: "definir é limitar").
É cruel e ao mesmo tempo divertido não me sentir indentificado com grupo algum de pessoas. Será que estou condenado a ser um lobo solitário para sempre! (risos). Digo isso por não compartilhar dessa desavença que muitos intelectuais, estudantes de humanas, tem com a palavra definição. Eu não nutro recentimentos com ela. Muito pelo contrário; eu gosto dela. Porém, como ela esta a limitar o entendimento de muitas pessoas sobre o tema principal deste artigo - a palavra - então eu vou substituir a palavra definição pela palavra individualidade (unicidade).
Explicando a substituição: quando dizemos que uma pessoa é única, estamos chamando ela de limitada? Para mim a palavra é como uma namorada - deitado na cama com uma namorada, olho nos olhos dela e digo: "você é unica-exclusiva. No mundo não tem ninguém igual a tu." Isso deixa ela arrepiadinha; o resto é sexo. Tudo bem que eu sou um galinha, digo o mesmo para todas (risos). Mas não minto para nenhuma. Todas são individuais, de forma que a individualidade não é uma restrição; é um universo particular que se abre diante dos nossos olhos. Eis a palavra.
Sendo uma definição (por suas caracteristicas individuais) e uma abertura, ou janela, (pela mobilidade da idéia); eis o duplo sentido da palavra, que chamo de inverso uma ao outro por ser conflituoso, mas que são sentidos que se complementam um ao outro. Quando uma pessoa fica diante da palavra e não consegue sentir o sabor dela, naturalmente ele a acusa. Mas isso tem mesmo haver com a palavra? Não. Isso tem haver com a vida.
Conclusão: não façam a crítica da palavra pensando que estão a fazer a critica dos esterioticos. Pois isso que estão a fazer não é a crítica da palavra. É a crítica de um esteriotico de palavra.
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