Páginas

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Teatro-bar

 
  Teatro-bar
  Bruxelas, ano 3025 - 
  A uns anos atrás eu fiz uma ligação telefônica para um amigo. Na  ligação  esse amigo demonstrou-se preocupado em escrevermos um projeto, para conseguirmos verba pública com o intuito de fundar um ponto de cultura. Não vou mentir dizendo que a idéia não me interessou, pois eu estava na merda, e era um trabalho. Mas é claro que eu estranhei o interesse - até meio exagerado - dele com isso. Afinal ele não era necessariamente o cara que precisa de verba pública para publicar os livros dele. Quase que disse a ele: ´´ Isso é um luxo seu, cara. Se você quiser dinheiro para editar e mandar a gráfica produzir exemplares do seu livro, é  só você mandar cortar sua TV a cabo. Mas se tu acha mais ´nobre`  pegar dinheiro publico do que cortar a TV a cabo, isso já é com você. Não me coloque nesse rolo``. Esse  projeto de criação dos pontos de cultura é legitimo,  importante e merece elogios.  O  governo belga e o governo de Bruxelas tomaram uma boa iniciativa. No entanto, eu gostaria de fazer três considerações sobre esses pontos de cultura:
 1) Os pontos de cultura são espaços públicos. 
 2) Quando vivemos em uma casa, nosso desejo é que essa casa seja nossa.  Que  não  seja uma casa que a gente sempre está a pagar um aluguel e nunca é nossa. Se essa é a vontade de qualquer pessoa, por que quê o governo de Bruxelas aluga espaços para serem  públicos, quando ele tem perfeitas condições de comprar esses espaços? O governo belga oferece caminhões de dinheiro para as indústrias automobilísticas; qualquer pequeno burguês que vai na caixa-econômica, consegue  financiamento para comprar um carro, uma casa, etc. Por que nós temos que pagar o aluguel de um espaço público? Talvez por ignorância dos políticos,  talvez por corrupção de colocar um dinheiro sempre no bolso de um burguês dono do imovel, certamente pelos dois motivos juntos. Mas os pontos de cultura não podem ser espaços alugados. Tem que ser espaços comprados.
 3) A entidade que administra o ponto de cultura  não é dona do espaço,  é  administradora.  O ponto  tem  que ser aberto  a população e a entidade tem que oferecer serviços  sociais  a população nesse espaço.
  Eu tenho uma opinião, sobre as associações, que deixa muitas pessoas  incomodadas com ela, que é: quando uma associação passa a ter como principal fonte de sustentação econômica o dinheiro de impostos (imposição), essa associação passa a ser também Estado. Se ela faz um bom trabalho para a sociedade,  merece ser elogiada pelo trabalho.  Se faz um serviço mal feito para a sociedade,  merece  e deve  ser  criticada  pelo  desserviço. Mas independente da  qualidade  do  serviço, elas são Estado.
  Agora que já fiz as preliminares criticas antes das proposições, vou apresentar nesse  texto  uma de minhas proposições - essa  proposição é na verdade um exemplo de algo bem mais significativo que estou tentando lhes dizer - uns compreenderam, outros não.
  O primeiro contato que eu tive com a cultura de Bruxelas foi o teatro. Isso foi muito  bom, pois nesse contato eu conheci pessoas excepcionais (tanto como artistas, quanto como pessoas). Eu fui estudar teatro (eu era um moleque) para ver se conseguia comer as moças estudantes de teatro;  de repente eu descobri uma arte magistral - que eu não tinha a menor noção (o teatro). Isso me fez notar varias coisas sobre a vida, as pessoas, eu, etc. Foi uma revolução de espírito.
  Passado o momento de deslumbramento, eu tracei um plano para atingir o objetivo que eu já tinha de ser um desenhista e roteirista de HQs e o novo objetivo de ser um escritor e diretor de teatro. Tracei um plano muito mal traçado para fazer ambas as artes e acabei me ferrando, pois  a vida não é feita só de arte. Eu tinha - e tenho - muitas idéias, mas era péssimo em saber organiza-las. Precisava aprender a organizar as idéias para realiza-las e organizar minha vida particular, já que eu estava quase indo morar debaixo  da  ponte (risos). Isso me levou a sair de Bruxelas para  um exílio nas montanhas Rochosas. Fiquei três anos. Conversei com a grande montanha e recebi os ensinamentos elementares da alma e da vida (da vida nem tanto). O fato é que antes eu era um sujeito angustiado, que as vezes até pensou em suicídio; depois das montanhas parece que um anjo veio morar comigo (em mim), não sei ... Eu sei que  eu  aprendi  a  organizar  meus pensamentos, minha vida, etc.
  Saindo das montanhas Rochosas, viajei pelo mundo e pela história - a montanha me disse que a melhor escola do  homem é o mundo - então sai para adquirir a sabedoria mundana (da vida). Estou só nas primeiras páginas do livro, mas antes do exílio eu não tinha 10% do conhecimento que hoje tenho.  Ainda  sou um idiota (todos somos), mas um pouco menos idiota. 
  Resolvi escolher dois empregos: quadrinhista (autor de HQs) e política (esse texto, por exemplo, é um trabalho político). Infelizmente não é possível fazer tudo. Tive que escolher e escolhi as duas coisas que mais me interessam.
  Como político (não sou um político de partidos,  embora os considere importantes)  não faço criticas sem formular proposições e sem explica-las nos mais mínimos detalhes. Por isso mesmo venho formulando um conjunto de proposições - as proposições culturais são um conjunto  dentro  desse  conjunto -  uma dessas proposições culturais, é uma idéia que eu retomei (uma idéia de quando eu queria  ser  artista de teatro) com a intenção de organizar ela como proposta a interessados  na  arte teatro, a amantes dessa  arte - tanto  plantar  ela  na cabeça das pessoas, quanto realizar um exemplo prático para mostrar que ela é possível.
  Direi ela em poucas palavras para depois  defender  a  razão  dela.  A  idéia é:  Abrir um Teatro-Bar.  Um  lugar  que  seja do artista e ele não precise ter que ficar  dando  satisfações para governo nenhum.  Pau no cú do governo! (risos).
  A pessoa do artista pode precisar de assistência social. Mas o artista não precisa de assistência social.  Ele precisa de pessoas que gostem realmente da arte dele.  
Se você cria um meio econômico-sustentável para o artista, você torna a si um agente políticoeconômico e ao artista muito mais forte socialmente e politicamente, do que o artista  dependente da " boa vontade " dos políticos e burguesia. O  artista deixa de ser apenas uma força ideológica e passa a ser uma força econômica - e no nosso caso - uma força econômica de esquerda. Uma idéia aparentemente simples, é na verdade um rastilho de pólvora que você acende. O resto é fluxo e explosão.
  Para realizar o projeto, bolei o seguinte plano:
 1) Reunir um conjunto de amigos, pessoas com quem tenho afinidades.
 2) Apresentar a idéia ao conjunto de amigos e deixa-los excitados com ela (risos).
 3) Discutir  ela  ouvindo  mais,  falando menos, para nisso agregar as idéias e personalidades dos amigos ao projeto, para que ele de fato se torne um projeto de um grupo,  ao invés de ser um projeto de uma única pessoa.
 4) Com essas pessoas e mais alternativas acrescentadas, levantar um capital suficiente para dar entrada no imóvel, só que antes de fazer isso, ter um plano muito bem bolado,  para que o espaço pague as prestações dele próprio, se autofinancie, pois essa é a razão dele.
  Depois de bolar essas quatro estratégias, dialogar com os amigos mais próximos. O esquema é bolar a estratégia para que o espaço se banque logo no primeiro momento.  Não interessa  que o  plano seja apenas um bom plano; ele tem que ser ótimo.
  Teatro-Bar é nome da proposta (gosto desse nome), mas a proposta na pratica é um teatro e lanchonete - afinal bar é um lugar onde só vai bebum - lanchonete vão estudantes,  família, etc.
  Dependendo da qualidade da proposta e das circunstâncias,  num  primeiro momento pode ser que a lanchonete não banque o espaço (isso se a proposta for ruim), mas já vai conseguir gerar uma grana para ajudar.
  Os cursos vão ter alunos se forem bons cursos (teatro, desenho, música, etc). O valor  dos cursos tem que ser baratos (10 reais). Na pior das hipóteses todos os alunos de todos os cursos serão 20 alunos (200 reais).  Esse  valor não paga as prestações do imóvel - além de outros custos (luz, água, manutenção),  mas já ajuda muito. 
  A terceira fonte de auto-financiamento são o valor dos ingressos das apresentações teatrais, musicais, festas e filmes exibidos no espaço. O  espaço vai ser ruim nessa terceira alternativa se a companhia  de teatro ser somente uma companhia de teatro (ou não; depende de variáveis). Isso porque eles vão apresentar uma peça que vão levar seis meses, ou um ano, para montar, em alguns poucos dias. O publico no teatro vai se esgotar, pois eles não vão ficar indo no teatro para assistir sempre a mesma peça. A circulação de peças pelos  Teatros-Bares é uma alternativa, mas na maior  parte dos lugares eles nem existem. Grupos com públicos já formados em outros lugares, ou acomodados ao Estado, dificilmente vão vir apresentar  uma peça num Teatro-Bar recém inaugurado - com um público em processo de formação -  alguns até virão, mas na maioria dos finais de semana os teatro ficará as moscas. Então  o  teatro precisa ter um projeto de exibição de filmes e os atores precisam ser além de artistas cênicos, também músicos (eu não sou artista cênico, mas darei cursos de desenho e estou  aprendendo a tocar violão). A música é uma coisa que todo mundo gosta. Nos ouvimos infinitamente uma música que gostamos - é claro que uma hora uma música enjoa e precisamos ouvir outras - mas o tempo de sobrevida da música é muito maior que o tempo de uma arte narrativa. Sendo bons músicos sempre temos o que apresentar para nosso público e ele não dispersa.
  Então eu reuni um grupo de amigos e disse: - Nos vamos ser uma companhia de teatro e vamos ser  uma  banda  de  músicos. - Os amigos disseram: - Mas eu não sei tocar nada, Royal! - Eu  disse: - Idaí?! Eu também não sei tocar porra nehuma! Nos vamos aprender. E assim começou o Teatro-Bar ...
  (Eu vejo muitos artistas e intelectuais se unirem na hora que ele querem pegar verba pública. Se eles se unem para isso, por que  que  também não podem se unir para fazer algo mais nobre?) .
  Jean Paul Sartre disse: " Somos nós que dizemos quem nós somos! "
                                                                                               
                                                                         Marco Marques (Royal)

Nenhum comentário:

Postar um comentário