O caso do médico filosofo
A primeira e mais significativa idéia que aprendi sobre o significado do conceito filosofia, é que a filosofia, ou filosofias, se tratam de estilos de vida. Por exemplo: para um determinado sujeito, a filosofia que ele crê e segue é a de acumular o máximo possivel de capital e usar o poder dessa acumulação como um poder que ele acha que possui o direito de ter sobre as outras pessoas. Outra filosofia: um outro sujeito acredita e vive de acordo com a idéia São Franciscana de levar uma vida modesta, possuindo em termos de bens materias apenas o indispensável. Essa é a filosofia deste homem em particular. Mais para frente aprendi um segundo significado para a idéia filosofia - que já não se trata de estilos de vida, mas passa a ser um discurso, uma analise, uma teoria sobre esses estilos e coisas que os envolvem. Depois disso - apenas depois - eu fui aprender o significado etimológico da palavra filosofia, mas não de forma seca, sim numa atribuição interessante ao filósofo e matemático Pitágoras. Segundo ouvi falar, um dia estava Pitágoras com seus alunos e companheiros, e um deles disse: " Pitágoras; você é um sábio! " Pitágoras, em resposta disse: " Não. Eu não sou um sábio. Eu sou um amigo (philia - amor, amizade) do saber (sophia - sabedoria); disso estava criada a palavra filosofo, que quer dizer: aquele que ama o saber, o conhecimento. Algo que realmente considerei bonito. Independente de Pitágoras ser o inventor, ou não ser, da palavra filosofia, essa distinção entre o sábio e o filosofo é bastante contemporanea, pois se o sábio é alguém com uma clarividência, ótima percepção de si e da vida, e com uma filosofia de vida apartir desta percepção, o filosofo passa a ser um "discursor" deste estilo e de outros; não para ganhar dinheiro, mas pelo amor a reflexão (esse é o legitimo filosofo).
Uma coisa que me incomoda, e que vejo muita gente fazer, é a mania de sempre querer criar uma oposição obrigatória entre duas coisas apresentadas, só porque elas não são necessariamente a mesma coisa (isso é algo irritante). O fato de duas coisas não serem iguais, não as torna obrigatóriamente rivais. Então a filosofia como estilos de vida e os pensamentos sobre esses estilos não são obrigatoriamente contrários que tem que espancarem-se - um acusar o outro - mas o que eles são é: duas boas possibilidades para a idéia filosofia.
Entre os vários pensamentos sobre estilos de vida, um que sou muito critico, é o que apresenta a idéia de que o indivíduo esta impedido de viver - de seguir uma filosofia, ou, de viver de acordo com suas próprias idéias - quando elas vão contra o modelo comum, ou, que é considerado comum. Basicamente, o poder de decisão é tirado do individuo e posto nas estruturas (religião, sistema financeiro, Estado, etc). O que acontece de bom ou de ruim é atribuido as estruturas; se você em algum momento defender o indivíduo, você é chamado de individualista (chamado?! Não. É acusado. Ter personalidade virou crime). Se você critica o indivíduo, aí o que dizem é que você não entende nada das estruturas imanentes da sociedade, da economia, história, do inconscinte coletivo, etc. Em outras palavras, dizem que você é um idiota. Tudo não passando de estruturas, nem sequer é uma opinião deles sobre você ser ou não um idiota. É um fato posto. Você é um idiota e ponto de exclamação! (risos). Então vamos discutir o que? Não somos nos que discutimos, é a estrutura que discute por nós (aff!).
Essa não é a primeira vez, nem será a última que sou levado a ter que dizer: Nos humanos somos tanto criadores quanto criaturas da história (é uma relação dialética). Quando são vistas apenas estruturas, isso quer dizer que as pessoas com essa visão perderam a noção ou perderam a sensibilidade dialética. A visão deles é determinista, pois nada fazemos. Me opondo a essa visão, não posso deixar de dizer que somos nós que fazemos a história, boa ou ruim, somos nós. A história não é determinista; o que esses deterministas fazem, é nada mais do que arrumar um punhado de desculpas para o fracasso, ou para a indolência.
A um e-mail atrás, falei de um médico que criou uma casa de estudos (história que nem sei se é real; mas que possui perfeitas condições de ser), dando abrigo e tempo para estudantes de renda baixa conseguirem se preparar para passar em vestibulares de boas universidades. Numa época pessíma - onde há muita demanda por médicos, pessoas morrendo sem a menor assistência - com poucos médicos as prefeituras de várias cidades pagam bons salários a profissionais do setor - tipo: dez mil reais para trabalhar 20 horas por semana - Evidentemente é necessário criar-se mais cursos de medicina para que a oferta seja proporcional a demanda, mas esse não é o tema deste texto. Continuando ... esse médico criou um curso que busca nas periferias jovens com uma grande inteligência e interesse pelos estudos (amor pelo saber) e paga em dinheiro para cada um 500 reais (além de dar abrigo), ao todo 15 estudantes. Os chatos de plantão, torcendo o nariz, dirão: 15 pessoas não são nada num mundo habitado por 7 bilhões de indivíduos, sendo que, um bilhão vive na extrema miséria. Claro que em termos numéricos é pouco; mas vocês vão querer que um médico resolva a crise de 6 bilhões de pessoas? Ele cria uma alternativa inteligente para 15 pessoas (não são números, são pessoas), e você faz o que? Torce o nariz? Consideramos que em cada ano, destes 15, dez entram em universidades, 100 em dez anos; consideremos que destes 15 indivíduos, 6 sigam o exemplo do mestre; isso passa a ter um outro significado (já possui esse outro significado). A ação é importante isoladamente - mesmo com desdém de uns - pois mesmo que muita gente não dee a mínima, é importante para as pessoas a sua volta, e é importante para você; e a ação é importante no plano social (rompendo com o ato meramente isolado), pois nela você tem uma ruptura estrutural apartir de uma ruptura nas consciências (o que representa construção de um novo inconsciente coletivo), mostrando que o indivíduo pode ter uma postura diferente, uma atitude diferente e um estilo de vida diferente nesta sociedade e neste tempo. Isso tem um forte significado, pois representa um respeito que a filosofia passa a ter não pelo discurso, mas pelo estilo de vida. Então aquele que busca o respeito, o interesse, a admiração e o gosto das pessoas pela filosofia, deve buscar isso com um discurso, e, principalmente, com um estilo de vida.
Desencargo de consciência burguesa
A primeira e mais significativa idéia que aprendi sobre o significado do conceito filosofia, é que a filosofia, ou filosofias, se tratam de estilos de vida. Por exemplo: para um determinado sujeito, a filosofia que ele crê e segue é a de acumular o máximo possivel de capital e usar o poder dessa acumulação como um poder que ele acha que possui o direito de ter sobre as outras pessoas. Outra filosofia: um outro sujeito acredita e vive de acordo com a idéia São Franciscana de levar uma vida modesta, possuindo em termos de bens materias apenas o indispensável. Essa é a filosofia deste homem em particular. Mais para frente aprendi um segundo significado para a idéia filosofia - que já não se trata de estilos de vida, mas passa a ser um discurso, uma analise, uma teoria sobre esses estilos e coisas que os envolvem. Depois disso - apenas depois - eu fui aprender o significado etimológico da palavra filosofia, mas não de forma seca, sim numa atribuição interessante ao filósofo e matemático Pitágoras. Segundo ouvi falar, um dia estava Pitágoras com seus alunos e companheiros, e um deles disse: " Pitágoras; você é um sábio! " Pitágoras, em resposta disse: " Não. Eu não sou um sábio. Eu sou um amigo (philia - amor, amizade) do saber (sophia - sabedoria); disso estava criada a palavra filosofo, que quer dizer: aquele que ama o saber, o conhecimento. Algo que realmente considerei bonito. Independente de Pitágoras ser o inventor, ou não ser, da palavra filosofia, essa distinção entre o sábio e o filosofo é bastante contemporanea, pois se o sábio é alguém com uma clarividência, ótima percepção de si e da vida, e com uma filosofia de vida apartir desta percepção, o filosofo passa a ser um "discursor" deste estilo e de outros; não para ganhar dinheiro, mas pelo amor a reflexão (esse é o legitimo filosofo).
Uma coisa que me incomoda, e que vejo muita gente fazer, é a mania de sempre querer criar uma oposição obrigatória entre duas coisas apresentadas, só porque elas não são necessariamente a mesma coisa (isso é algo irritante). O fato de duas coisas não serem iguais, não as torna obrigatóriamente rivais. Então a filosofia como estilos de vida e os pensamentos sobre esses estilos não são obrigatoriamente contrários que tem que espancarem-se - um acusar o outro - mas o que eles são é: duas boas possibilidades para a idéia filosofia.
Entre os vários pensamentos sobre estilos de vida, um que sou muito critico, é o que apresenta a idéia de que o indivíduo esta impedido de viver - de seguir uma filosofia, ou, de viver de acordo com suas próprias idéias - quando elas vão contra o modelo comum, ou, que é considerado comum. Basicamente, o poder de decisão é tirado do individuo e posto nas estruturas (religião, sistema financeiro, Estado, etc). O que acontece de bom ou de ruim é atribuido as estruturas; se você em algum momento defender o indivíduo, você é chamado de individualista (chamado?! Não. É acusado. Ter personalidade virou crime). Se você critica o indivíduo, aí o que dizem é que você não entende nada das estruturas imanentes da sociedade, da economia, história, do inconscinte coletivo, etc. Em outras palavras, dizem que você é um idiota. Tudo não passando de estruturas, nem sequer é uma opinião deles sobre você ser ou não um idiota. É um fato posto. Você é um idiota e ponto de exclamação! (risos). Então vamos discutir o que? Não somos nos que discutimos, é a estrutura que discute por nós (aff!).
Essa não é a primeira vez, nem será a última que sou levado a ter que dizer: Nos humanos somos tanto criadores quanto criaturas da história (é uma relação dialética). Quando são vistas apenas estruturas, isso quer dizer que as pessoas com essa visão perderam a noção ou perderam a sensibilidade dialética. A visão deles é determinista, pois nada fazemos. Me opondo a essa visão, não posso deixar de dizer que somos nós que fazemos a história, boa ou ruim, somos nós. A história não é determinista; o que esses deterministas fazem, é nada mais do que arrumar um punhado de desculpas para o fracasso, ou para a indolência.
A um e-mail atrás, falei de um médico que criou uma casa de estudos (história que nem sei se é real; mas que possui perfeitas condições de ser), dando abrigo e tempo para estudantes de renda baixa conseguirem se preparar para passar em vestibulares de boas universidades. Numa época pessíma - onde há muita demanda por médicos, pessoas morrendo sem a menor assistência - com poucos médicos as prefeituras de várias cidades pagam bons salários a profissionais do setor - tipo: dez mil reais para trabalhar 20 horas por semana - Evidentemente é necessário criar-se mais cursos de medicina para que a oferta seja proporcional a demanda, mas esse não é o tema deste texto. Continuando ... esse médico criou um curso que busca nas periferias jovens com uma grande inteligência e interesse pelos estudos (amor pelo saber) e paga em dinheiro para cada um 500 reais (além de dar abrigo), ao todo 15 estudantes. Os chatos de plantão, torcendo o nariz, dirão: 15 pessoas não são nada num mundo habitado por 7 bilhões de indivíduos, sendo que, um bilhão vive na extrema miséria. Claro que em termos numéricos é pouco; mas vocês vão querer que um médico resolva a crise de 6 bilhões de pessoas? Ele cria uma alternativa inteligente para 15 pessoas (não são números, são pessoas), e você faz o que? Torce o nariz? Consideramos que em cada ano, destes 15, dez entram em universidades, 100 em dez anos; consideremos que destes 15 indivíduos, 6 sigam o exemplo do mestre; isso passa a ter um outro significado (já possui esse outro significado). A ação é importante isoladamente - mesmo com desdém de uns - pois mesmo que muita gente não dee a mínima, é importante para as pessoas a sua volta, e é importante para você; e a ação é importante no plano social (rompendo com o ato meramente isolado), pois nela você tem uma ruptura estrutural apartir de uma ruptura nas consciências (o que representa construção de um novo inconsciente coletivo), mostrando que o indivíduo pode ter uma postura diferente, uma atitude diferente e um estilo de vida diferente nesta sociedade e neste tempo. Isso tem um forte significado, pois representa um respeito que a filosofia passa a ter não pelo discurso, mas pelo estilo de vida. Então aquele que busca o respeito, o interesse, a admiração e o gosto das pessoas pela filosofia, deve buscar isso com um discurso, e, principalmente, com um estilo de vida.
Desencargo de consciência burguesa
Buenas leitores!
Eu moro no Jardim Brasilandia, bairro situado na imortal cidade de Galapagos. Enquanto vastos impérios, repúplicas, Estados cairam; a cidade de Galapagos manteve-se viva e pulsante. Bem ... isso é mentira. Na verdade a cidade de Galapagos existe a apenas 60 anos, meu avô é mais velho que ela; inclusive, ele até lutou na famosa revolução gerundiana.
A cidade de Galapagos está no meio de uma fase de expansão do capitalismo, e nessa sede sem limites por encher os bolsos de dinheiro - sem limites e sem valores - eu estou assistindo um grupo de pessoas se perderem das idéias que defendiam anteriormente.
No bairro que eu moro não tem saneamento básico, as ruas são de lama, (quando chove formam-se crateras na rua de casa; e não estou exagerando), não tem uma única oficina de artes - Uma oficina para as pessoas poderem estudar arte, uma ocupação positiva das mentes, um aprender a fazer entretenimento, ao invéz de sem saber, ficar a mercê da grande industrial cultural. Algo sólido, que não seja o evento que os políticos fazem para virarem celebridades, depois que elegem-se, esquecem do povo. Não tem nada disso no Jardim Brasilandia. Todos são cidadãos de Galapagos, mas esses da periferia do meu bairro estão esquecidos como se não existissem (parece que o governo está a dizer: "Dane-se eles! A cultura será apenas para as elites intelectuais dos centros. Para os "evoluídos", pois esse é nosso olhar") .
Com esses pensamentos, eu me encontrei com o ex-ministro da cultura de Galapagos, agora candidato ao senado, e lhe falei sobre o tema. Eu disse: "Como vocês podem pagar 40 mil reais para a atriz burguesa apresentar um espetáculo de um dia no centro, quando com essa grana vocês pagariam dois anos, ou três anos, de salário para um oficineiro vir fazer algo de muito importante na periferia que moro? Vocês são contra o meu bairro?" O homem grande, com um ar nobre, começou a falar das coisas boas que eles fizeram, e que eles são melhores do que os outros que nada faziam na cultura, etc, etc. Então eu disse a ele: "Meu amigo, não estou dizendo que essas coisas que você esta falando, não sejam boas. Não estou dizendo que vocês não sejam menos ruins que a direita neoliberal. O que estou dizendo é que vocês pegaram um dinheiro que não é de vocês, é dinheiro de imposto que as pessoas são forçadas a pagar a vocês, e vocês encheram o cú de um artista burguesa com esse dinheiro. Vocês fizeram isso, enquanto em muitas periferias da cidade não acontece nada em termos de cultura". Mais uma vez, ele ao invés de contrapor o que eu disse, ou reconhecer o erro, saiu pela tangente falando das coisas boas que fizeram, nesse discurso cretino e paternalista, como se eles não tivessem feito mais do que a obrigação (afinal são pagos para isso). Nisso eu disse: "Você não acha que tem algo de muito errado nesse aburguesamento do artista?" . E no que disse isso, sabe o que ele respondeu? Sabem? Ele disse: "O que é que tem? " O que é que tem?! O que é que tem é que eu faço parte da classe trabalhadora, eu sou um representante dessa classe, se você mudou de lado, aí já é problema seu.
Nessa critica que faço do aburguesamento do artista, a critica é menos a isso, mais ao fato de que além desse movimento, os caras não tem vergonha na cara de fazerem isso com dinheiro público. Nem eles tem vergonha na cara, muito menos os políticos tem vergonha na cara. Esses artistas são celebridades, como celebridades eles apresentam suas artes e vendem ingressos. Não precisam furtar nosso dinheiro. Furtar? Furtar não. Roubar. O Estado prática o assalto a mão armada. Enquanto isso pessoas morrem em filas de hospitais, enquanto isso artistas bons vivem marginalizados porque não são celebridades, enquanto isso esses bandidos roubam nosso dinheiro. Vocês concordam com isso?
Quando o político começa a falar das coisas boas feitas na gestão dele, quando o criticamos por erros cometidos, mas ele nem dá ouvidos a critica e diz: "o que que tem? ", quando isso acontece, ele está falando como se disse-se: "Meu saco tem duas bolas. Já que tem duas bolas, eu posso cortar uma que não tem problema". Ele diz isso porque ele pode pagar bons médicos para ele e família dele, ele tem entretenimento sem precisar pagar uma passagem de ônibus cara para ir até o entretenimento, ele é CUL-ti, pois ele tem o olhar (só se for olhar para o próprio umbigo).
O nome disso é desencargo de consciência burguesa. É o burguês fazendo um conjunto de ações filantrópicas, para tirar o peso na consciência de ser um burguês. Depois que ele faz as tais ações, dane-se o resto.
Greve dos hidroviários
A alguns dias o jornal da TV cultura transmitiu um debate entre [ E ], professor de filosofia da USP, com um posicionamento ideológico político de esquerda (moderado), e entre a direitista [ D ], professora de direito internacional - com a apresentadora do telejornal [ A ] tendendo mais para a direita. Basicamente eles debatiam, entre outras coisas, sobre a greve dos profissionais hidroviários da cidade de São Petesburgo e o caos provocado por essas greves.
A direitista demonstrou-se contrária as greves, dizendo que a greve desses profissionais deveria ser considerada inconstitucional, em outras palavras, os profissionais desse setor deveriam ser proibidos ou punidos por fazerem greve. Os motivos apontados por ela foram: Este é um serviço indispensável para a população, serviços que de maneira alguma podem ser paralisados por serem indispensáveis. Os trabalhadores destes serviços devem encontrar outros meios de protestar e de reivindicar melhorias das condições de trabalho. O segundo motivo levantado contra a greve, foi de que ela se trata de uma greve política partidaria.
[ E ], buscando questionar o argumento de que essa greve em particular é política, disse que toda greve é política (verdade; mas óbvio que existem particularidades sobre o tipo de política em questão. As motivações políticas costumam existir no plural; são de mais de um tipo).
O terceiro motivo apontado pela direitista, é o de esses profissionais da rede hidroviária de SP, já ganharem bem. [ E ], fazendo um contraponto a esse argumento, disse que é claro que eles estão certíssimos em exigir aumentos salariais e mais bônus, afinal, segundo [ E ], o aumento de salários e benefícios, significam uma melhoria da qualidade dos serviços prestados a população (como se houvesse um automatismo nisso).
Como considero que algo de essencial deixou de ser dito neste breve debate que rolou no telejornal, estou escrevendo este artigo para falar disso.
Primeiramente considero um profundo absurdo o posicionamento contrário ao direito de greve.
Colocar a culpa do caos causado no transito de pessoas na cidade (que aliás já é caótico), nos trabalhadores grevistas dos transportes hidros, é um meio de desviar o foco das tragédias estruturais que vivem as cidades da Nova Rússia, a maneira absurda como elas são organizadas (aliás, são organizadas?). Por exemplo, o fato da maioria dos trabalhadores morarem em cidades subúrbios, ou, em subúrbios nas cidades, o que os leva a terem que se deslocar de suas casas até os centros metropolitanos onde trabalham, gastando em média seis horas por dia de suas vidas, presos em hidros como gafanhotos enlatados, transportes de baixa qualidade e auto custo.
Esse transporte sobrecarregado de passageiros, colocados de improviso em cidades muito mal planejadas, naturalmente tornam-se sensíveis a mínima crise que sofrerem. Não é por falta de terrenos próximos aos locais de trabalho que a população é obrigada a morar distante; mas porque esses terrenos custam muito caro - o que de direito pertence ao povo, encontra-se nas mãos do capital especulativo.
A burguesia e o Estado são os maiores responsáveis por problemas, como esse citado, e outros, como o excesso de carros, poucos veículos leves coletivos, passagens de transporte caras, etc. A soma de todas essas limitações socioeconômicas, vai formando uma bola de neve maldita. O resultado são transtornos sociais e o estado de crise dos transportes públicos, reduzindo em muito a qualidade de vida da população e aumentando o custo de vida. Em outras palavras, nos pagamos caro para se ferrar.
Se um grupo social contrario a isso faz uma manifestação política (no caso a greve), como protesto, estão com plena razão de protestar (neste sentido não há nada de errado no fator político. Falam na greve política como se fazer greve com essa motivação fosse errado. Mas o erro é o oposto. O erro está em ficar de braços cruzados).
É uma demonstração clara de posicionamento autoritário, a posição contra o direito democrático, adquirido pela classe trabalhadora depois de muita luta, de paralisação, quando considerarem a necessidade dela. Há um lamentável equivoco em querer questionar esse direito constitucional que é primordial. O que então merece ser questionado, ou defendido, não é a greve, é a razão das greves. Se a greve trata-se de uma greve política partidaria, como afirma a direita (afirmação que aliás, verdadeira ou falsa, é uma afirmação política), esse meio é um tiro no pé (caso a população creia ou descubra ser essa a motivação. Afinal as pessoas que já sofrem com o baixo nível dos transportes em São Petesburgo, não acham a menor graça em um grupo resolver protestar contra a precariedade destes serviços paralisando eles e piorando ainda mais a rotina dos passageiros (esses dias de paralisação são para quem depende dos transportes, um dia de cão). Só que a motivação política partidária (se é que ela existe mesmo) só pode ser da parte dos dirigentes sindicais. Digo isso considerando que a maior parte dos trabalhadores são apartidários (no dia das eleições eles depositam seus votos em alguém que eles considerem menos pior; é raro ver alguém ir votar feliz por estar indo votar). Então a motivação (ou aquilo que move a "a maioria") a ser considerada, são duas: 1) O desejo pessoal de aumento de salários e benefícios 2) Não furar a greve para não se queimar com os colegas de trabalho e lideres do movimento grevista, assim evitando serem chamados de traidores. O primeiro motivo envolve algo bem objetivo, de ordem material. O segundo motivo é subjetivo, de ordem moral. Esses dois motivos coexistem somados aos motivos políticos que houverem.
[ E ] disse que com o aumento dos salários, a qualidade dos serviços prestados a população também aumenta. [ E ], já que é assim, por que é que a qualidade dos serviços prestados por nossos deputados e senadores é uma porcaria?
É obvio que o aumento de salários de trabalhadores de qualquer setor que seja, não significa nem a melhoria, nem a piora dos serviços prestados por esses trabalhadores - se estivermos levando em consideração apenas esse fator. Há outros fatores bem mais complexos que influenciam nisso. Um trabalhador com renda de 800 reais mês, dira que o que existe de pior qualidade no transporte público é o preço da passagem. Se vão aumentar o salário de profissionais que ganham acima de 3 mil, 4 mil reais, esse dinheiro não vai vir do nada. Esse dinheiro vai vir do nosso bolso. Acho que isso resume a questão:
A greve é um direito constitucional obtido por uma classe que sofreu muito para ter esse direito. A razão das greves de profissionais que já ganham acima de 3 mil e 4 mil é uma razão anti-popular: a ganância.
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