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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O povo das florestas


  O povo das florestas

  A tradição é a ilusão do permanente. Eis um princípio de liberdade. Se a tradição for por exemplo passar a vida inteira isolado numa montanha; somente vou subir na montanha para saltar dela de asas deltas. Se as atitudes não estão em acordo com as tradições, idaí? As tradições não são o eu. Elas são convenções criadas por homens de uma época. O indivíduo é algo bem mais complicado que convenções estabelecidas em um período. As complicações são necessárias. Acho que é isso que me deixava meio enjoado quando eu ouvia alguns intelectuais elogiando de forma romântica o modo de vida indígena, enquanto satanizavam o modo de vida dos que não são. Oras! Fiquei feliz quando li em A nau dos insensatos, romance escrito por Katherine Anne Porter, um personagem manifestando esse mesmo sentimento meu em relação a visão romântica da vida tribal. Ao mesmo tempo que estes homens romantizam o modo de vida do povo das florestas, e condenam o resto para sentirem-se críticos e intelectualmente "superiores" - Ah! Vaidade ... -  eles não abrem mão de dormir em colchões de almofada para dormir em redes, habitar em ocas, quando doentes tomar remédios feitos pelo pajé com ervas da mata no lugar dos medicamente farmacêuticos, etc.
Alguns irão dizer que fomos dominados e alienados pela sociedade capitalista, mas, francamente, eu não tenho nada contra colchões de almofada, casas de alvenaria com quartos separados, dipirona sódica e dorflex; muito pelo contrário. Sou um defensor radical de todas essas coisas fúteis (risos). Brincadeiras a parte, os problemas não estão nesses modos de viver. O  que  fica mais do que notável, a meu ver, é uma ausência de lucidez  no discurso   desses pensadores. Alguns eu acusaria de estarem mergulhados em um grande rio de hipocrisia, mas ... sinto falta de homens que saibam defender algo com mais verdade do que a vejo (a que não consigo ver) no discurso desses homens.
   Segundo supõe os historiadores, índio é o nome que por engano, ou desleixo, os europeus deram ao povo nativo deste continente. Isso porque os navegantes queriam chegar as Índias orientais, e como o continente americano era desconhecido, ao chegar nele pensaram estar na Ásia e chamaram o povo destas terras de índios. Como costuma acontecer, quando um povo com maior força bélica chega num território rico de de um povo com menor força bélica, os europeus iniciaram a invasão e assassinato do povo que aqui encontrou. Os que não eram mortos, tinham aceitar a imposição de uma nova cultura com suas tradições, religião, idioma, padrões estéticos, etc. O homem invasor considerava-se "superior".
  Quinhentos anos da história nesse processo de tomar posse das coisas do outro que lhe interessam e impor suas convenções ao outro independente do outro querer ou não querer.
Nos Estados Unidos - que bizarramente é coloca-se como a nação da liberdade, mas única liberdade verdadeira estado-sunieses, é a liberdade da força de guerra e a opressão para os que não a possuem - os povos das florestas foram praticamente extintos. Sioux, Lakota, Cheyenne, Arapaho, Mohawks, Navajos, Shoshone, Cherokee, Seneca, Cree, Kiowa, Creek, Irokis, Crow, Apache, Black-feet, Mescaleros, jicarillas, chiricahuas, Siksitas, Huron, Chikasaw, Natchez, Tonkawa, Atakapa, Muskogee, Ojibway, Algonkin, Micmac, Wendat, Potowatomi, Oneida, Tuseahora, Kanieekehake, Onondaga, Cayuga, Chopunnish, Chirewyan, Chilcotin, Ingalik, Kaska, Beathuk, Tsimshian, Tlingit, Haida, Yurok, Salish, Nuxalk, Kwa-kwa-ka`wakw, Mandan, Nuu-chah-nulth ... dezenas de povos inteiros com crianças, homens, mulheres, velhos, todos assassinados.
   Hoje no Brasil, os povos das florestas sobreviventes, em alguns estados estão sendo levados a cometer o suicídio coletivo. Isso para não falar das crianças indigenas que estão sendo estupradas por coronéis. Por que? Porque a mãe provedora deste povo - a floresta - está sendo devastada para virar pasto. Na sociedade brasileira o humano não vale nada como humano. Ele só vale como ser que possui dinheiro, que pode comprar e vender.
  Românticos defensores dos povos das florestas (muitos nunca plantaram uma árvore na vida) não vivem em florestas. Vivem em cidades comendo e bebendo a morte do mesmo povo que eles dizem defender.
  O povo das florestas não precisa de visões bucólicas do índio, nem de idealizações baratas. O povo das florestas precisa das florestas.

                                                                                                    Marcos Royal

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