- Conflitos sobre a maconha -
Uma vez me perguntaram, que já que eu gosto de plantas, por que eu não plantava maconha? Respondi: "Bem ... Eu não sou usuário de maconha. Já tenho meus vícios; - arte, buceta ... - mesmo que eu quisesse, não tenho tempo para novos vícios. Se acaso eu plantasse maconha, seria para comércio. Mas aí o Deic viria em minha casa e eu iria para cadeia graças à ganância minha e aos vícios de uns doidãos. Muitos desses doidãos, aliás, são uns filhinhos de papai que começam a fumar a maconha para se sentirem rebeldes, questionadores; mas acabam tornando-se, como a maioria das pessoas, empregados responsáveis pela manutenção da mesma sociedade que eles imaginam ser os ´questionadores`. " Essa foi, mais ou menos, a minha resposta.
Evidentemente, a questão é bem mais complexa do que o simplismo de algumas poucas palavras ditas num dialogo cuja a opinião tende a ser breve. Entre os usuários de maconha, existem os que começam a fumar o baseado movidos por uma espécie de movimento misticopoéticojovem; tanto querendo fazer parte - ou ser um integrante - de um grupo de outros jovens, ou pessoas - buscando a aceitação - quanto querendo evadir da rotina do mundo cotidiano para o mundo surreal dos narcóticos. Rebeldia, busca da aceitação, frustração ao mundo contemporâneo buscando algum meio de fuga dele; uma mistura dessas coisas que varia em proporção de um individuo para outro. Eis as razões das pessoas se drogarem.
É muito fácil para um cara como eu dizer: "Essas pessoas poderiam perfeitamente transformar o mundo em algo mais interessante e buscar coisas boas no mesmo mundo - ao invés disso - elas fogem amedrontadas. Elas não querem encarar nada que lhes desagrade - o que em outras palavras, ironicamente, acaba sendo: uma manutenção do desagradável; já que não se luta contra ele; se foge dele - e como o ser humano tem partes positivas e partes negativas; é a mistura de ambos; eles não buscam uma verdadeira autocomprensão de si próprios, pois temem esse encontro - estando acordados olhar no espelho e ver algo que lhes é horrível aos olhos. - Incapazes de se olhar, possuem um profundo autodesconhecimento. Por isso não tem como eu considerar um drogado como um ser livre."
Dizer o que disse acima é fácil; pois quando fazemos uma avaliação do outro, nós partimos de nossas próprias experiências de vida - nossas ao contrário das do outro de quem falamos - Falamos do outro como se ele fosse nós; mas o outro não sou Eu. Eu sou Eu. Outro é o Outro. Cada pessoa é de um jeito, sente o mundo de uma forma, ama a sua maneira, odeia, deseja, teme, etc. Claro que, em cada um de nós há uma igualdade: o humano. Mas em cada humano há uma individualidade, um ser de outro planeta. Em cada um de nós há um extraterrestre. Bem ...
Como me interesso por questões sociais, e por questões humanas, pensei, num outro momento, em escrever um texto sobre o tema maconha - assim como pensei em escrever sobre muitas coisas e penso em escrever - Mas um demônio em mim, disse: "Você não é um usuário de maconha. Se a maconha deixasse de existir no mundo, você não daria a mínima. Então, dane-se tanto quem é a favor quanto quem é contra. Se ocupe de coisas do seu interesse, tipo: artes, buceta, plantio de quiabo ... etc. " Pensei nas palavras dele e disse: “Até que esse demônio é um sujeito convincente” (risos). Tanto é que deixei esse tema de lado; mas depois de assistir uma reportagem sobre a maconha feita no jornal de domingo da TV Record, apresentando um ponto de vista conservador de direita sobre o tema, aí me vejo na obrigação de falar.
Embora a reportagem não tenha dito de forma direta ser contra a liberalização do uso da maconha, ela mostra os usuários de maconha nos centros de São Paulo, apresentando isso como uma imoralidade. O mesmo faz em relação ao uso de maconha por estudantes da USP, apresentando como algo perverso, imoral e que deve ser coibido pelas autoridades; usando como argumento de razão o fato da maconha ser uma droga e ser ilegal (legalmente proibida pelo Estado brasileiro). Nisso eu noto algo que é tragicômico ...
O que esses parvos antimaconha não percebem, é que exatamente o fato de ela ser proibida, somando-se a interpretação mitopoética da maconha por muitos jovens e até uns velhos, isso, exatamente, fortalece o desejo de muitos usarem a maconha. Vejam bem um exemplo sobre uma outra coisa considerada ilegal - não perante o Estado; mas perante as convenções sociais do momento. - Um certo homem, casado, vendo uma vizinha gostosa, nem tão gostosa assim, sente um desejo até exagerado de comê-la. Em contrapartida, o mesmo homem, estando solteiro em plena liberdade de comer a vizinha esbelta, já não sente o mesmo nível de atração que sente estando casado. A vizinha já nem parece tão gostosa, é quase feia, e, não mais a ilha misteriosa e escondida dos prazeres. É algo que ele tem as mãos e enfastiasse como as maiorias das pessoas enfastiasse com a rotina. Claro que esse argumento desagrada os monogâmicos que criaram mil argumentos para questionar minha tese; mas não seja por isso. Utilizarei um outro exemplo. Imaginem um homem preso em uma penitenciaria. Ele está com as mãos na cerca de arame, que cercam o terreno do presídio, assistindo a vida que se passa lado de fora do lado de fora. Ele vee um moleques jogando futebol num campinho de terra; vee uns outros trepando e descendo de arvores, casais de namorados caminhado na estrada de mãos dadas. Tudo isso ultrapassa para ele as fronteiras do real. É mágico e torna o desejo de estar do outro lado da cerca, muito maior do que os daqueles que podem realmente estar lá e dos que realmente estão. Como diz um jargão conhecido: O proibido é mais gostoso.
Continuando a avaliação da reportagem:
Os defensores da maconha dizem que ela é uma droga mais leve que o cigarro e a bebida alcoólica. Para contrapor isso, a reportagem apresenta casos extremos, como por exemplo, o de um cara que era uma pessoa normal e depois de ter usado maconha excessivamente ficou esquizofrênico e hoje vive a base de medicamentos. Mostrou também um outro caso de um jovem que ficou agressivo com a família e virou um vagabundo. Mas o principal argumento contra a maconha, é do que ela é uma porta de entrada para outras drogas mais pesadas, tipo: crack, cocaína, LSD, outras. Muitos dos usuários dessas drogas começam com a maconha e depois vão para as outras. E isso não é uma invenção do partido antimaconha. Isso é um fato. Mas a questão é:
Por quê? . . . , A gente sabe perfeitamente que quem faz o comércio de maconha são os mesmos que fazem das outras drogas. Quem quer fumar um baseado, não vai na santa igreja do reino de Deus comprar um. Quem quer, vai na boca, ou na biqueira. Nisso, tanto entra em contato com os usuários de outras drogas, como de quem as vende. Do mesmo modo que um sujeito entrando num mercado de produtos alimentícios para comprar, digamos, um pacote de bolachas, vendo outras mercadorias, sorvetes , chocolates, bebidas, fica com vontade de comprar essas outras. Se lhe oferecem uma primeira amostra grátis, é lógico que ele aceita; afinal trata-se de um moribundo completamente angustiado que busca a fuga do mundo que o deixa entediado e o faz infeliz. O resto, eu nem preciso dizer...
Vocês notaram a grande ironia? Aliás. esse poderia ser perfeitamente o titulo desse artigo: A grande ironia .
O desejo pelo desejo proibido é sempre maior que esse desejo se ele não fosse proibido. Tanto é que as próprias telenovelas da TV Record são cheias de casos de adultérios, um comendo o outro. Depois fazem um julgamento moralista idiota das puladas de cerca dos personagens, condenados as infidelidades e puxando o saco dos corretos segundo a moral estabelecida (como se ela fosse uma verdade absoluta). Mas independente dos discursos moralistas, os adultérios estão em 99% das narrativas; erro humano, ou libertação das convenções, eles estão porque eles dão audiência. O povo gosta - abertamente ou secretamente, as pessoas riem. Julgam para se considerarem superiores. Independente dos julgamentos, consciente ou inconsciente, elas gozam o prazer proibido que elas não podem ter, tranferindo-os para personagens de ficção - As chamadas fantasias eróticas.
Voltando ao tema... Enquanto a reportagem da TV Record foi feita num tom que não é neutro; que é contra a legalização da maconha - tanto é que ela colocou especialistas para falar contra e não colocou os especialistas que falam a favor da liberalização - O que ela colocou foi um grupo de Repers que nem sabem falar direito (ou pelo menos na reportagem foi isso que apareceu) para falar a favor; passando a idéia de que os defensores descriminalização da maconha são ignorantes. Se ela colocasse os especialistas que falam a favor junto com os que falam contra, ela poderia ter feito um debate inteligente e democrático sobre o tema. Mas parece que isso não interessa a eles. Diante dessa censura ao dialogo; da apresentação do tema mais julgando e condenando do que buscando refletir ele a fundo e buscando formas inteligentes para lidar com ele; só me resta apresentar um fato que para mim é mais que claro:
Os maiores culpados pela maconha ser uma porta de entrada para drogas mais pesadas, são exatamente os que se posicionam contra a legalização dela. Tanto por que eles, boa parte deles, são um grupo um social grotesco, antidemocrático, conservadores de direita, e sendo o que são, eles ajudam a fortalecer a idéia do uso da maconha como uma atitude de resistência - resistência a eles próprios - e liberdade. Isso somado ao fato lamentável de eles obrigarem os usuários de maconha a entrarem no território de outras drogas, tragicamente tornando esses jovens escravos de algo que eles fizerem porque eles queriam ser "livres". Isso é bem triste. O usuário de maconha criminalizado é jogado no submundo; perseguido tem que ir para cracolandias subterrâneas. Inevitavelmente tendo contatos com esses outros excluídos do conviveo social, acabam indentificando-se um com outro e usando as mesmas drogas. E qual a solução que a extrema direita responsável pela maconha ser uma porta de entrada para outras drogas propõe? O que boa parte deles propõe é enjaular os drogados em manicômios; nestes lugares recebendo um tratamento para serem condicionados a viverem "saudavelmente" no perfeito mundo de hipocrisia reacionária. [...]
Entre o proibitismo imbecil reacionário e a infelicidade existencial dos viciados, eu... Não passo de um tolo dizendo:... Vamos julgar menos... Refletir mais... Buscar meios inteligentes para encarar as crises múltiplas - socias, existências - que vivemos num momento histórico e as que estamos sujeitos por nossa mera condição imperfeita de humanos... somos imperfeitos e isso não é esse o problema... Alguém vai me ouvir? ... ,
Duvido...
No mundo contemporâneo a maconha não é proibida. Todo aquele que quer usar maconha, usa a vontade. No mundo contemporâneo o que é proibido é o pensamento.
A filosofia é odiada; ninguém quer mais pensar.
Todos querem respostas imediatas.
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